quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Loki, Félix, adoção e sentido

    Recentemente fui assistir a "Thor: O mundo sombrio". Não obstante eu ser um fã declarado de super-heróis, a história em si, muito bem contada, me chamou a atenção. O filme é muito bem dirigido, com ação, humor e drama na medida certa. As relações bem construídas entre os personagens dá um colorido todo especial à película. Mas o principal destaque do filme é sem dúvida Loki, o irmão invejoso do protagonista Thor. A bela atuação do ator Tom Hidelston aprofundou ainda mais o personagem, e o carisma tanto de criador, como criatura fazem o espectador mergulhar na psiquê mais profunda do vilão.

    Pegando como paralelo outro personagem que se divide entre a brilhante atuação de um grande ator e uma figura ficcional intrigante, Félix, da atual novela do horário nobre, interpretado pelo ator Matheus Solano, também é daqueles "vilões" em que por vezes é impossível torcer para a sua derrocada.

    Tanto Loki, quanto Félix possuem paralelos interessantes em seu background. Em primeiro lugar, ambos usam muito da sedução para alcançarem seus objetivos. Não que isso seja ruim, é apenas um dado de realidade que ambos usam potencialmente. Essa sedução faz com que o público fique dividido entre amá-los e odiá-los. Por vezes, eu mesmo fiquei pensando durante o filme "poxa dêem um planeta para o Loki governar para que ele seja feliz!". Com Félix acontece a mesma coisa. De vilão convicto a possível vítima, o personagem vem conquistando o Brasil, a ponto do autor da novela começar a retratá-lo de maneira mais humana e redentora.

    Mas a principal equivalência entre os dois vêm de raízes mais profundas. Loki é irmão adotivo de Thor( o Loki da mitologia original é irmão de Odin). Ele é filho de um gigante do gelo, que foi resgatado por Odin, à beira da morte, e criado como um asgardiano. Félix, ao que tudo indica, também passou por um processo de adoção ( embora a trama da novela possa mudar). Em ambos casos, os dois foram retirados de uma realidade muito diversa àquela a qual foram colocados na sequência. Das montanhas de gelo aos suntuosos palácios de Asgard, de uma possível infância humilde, a um rico e pomposo berço, um e outro atirados num mundo de frágil ilusão.

    É consenso quase geral entre os especialistas que casos de adoção não devem ser escondidos das crianças. Procurando ajuda profissional, ou apenas o momento certo, o fato é que os pais precisariam sempre que possível, contar a verdade aos filhos. Tudo por que desde o nascimento a criança já possui rudimentos de um ego, capaz de captar alguns recursos, mesmo que insipiente da realidade. Winnicott fala da privação e delinquência, quando coloca que um ambiente falho, nos primeiros momentos de vida, trará consequências para a vida adulta. Um ambiente acolhedor ( leia-se a "mãe" suficientemente boa) capaz de prover suas necessidades no momento certo, cria a ideia de onipotência, necessária nesses primeiros momentos de caos da vida do bebê. Dessa falha ambiental surgirão comportamentos que obrigarão esse mesmo ambiente a lhes resgatar o que faltou. Muitas atitudes de delinquência podem ser explicadas por essa teoria. O mundo, nesse caso, é cobrado por sua falta e a criança pede atitudes de controle e autoridade.

    Já para Jung, a criança em seus primórdios, está muito mais em contato com o incosciente dos pais, do que com os próprios. Portanto, a culpa, os receios e pensamentos sobre a adoção acabam sendo captados pela criança, mesmo que não seja em palavras. Portanto, se a verdade sobre o adotar for escondida, à criança sobrará um sentimento de inadequação e não pertencimento.

    E assim o é com Loki e Félix. Ambos crescem com o sentimento primordial da inveja sobre os irmãos ( a questão da inveja é abordada por Melanie Klein como inveja primária do seio, que se não ressignficada, transborda para outras áreas), que em sua mente, ficam com a maior parte do amor dos pais. A sensação de que o amor foi retirado vêm de berço, do abandono no nascimento, mas acaba sobejando nos relacionamentos posteriores. Loki acredita ser o legítimo rei de Asgard, assim como Félix persegue o desejo de ser presidente do hospital. Isso é uma atitude para compensar o sentimento de inferioridade e não pertencimento que trazem consigo.

   Os dois querem agradar os pais, mas não os pais comuns e sim a imago paterna endeusada que ambos possuem. Félix a todo momento repete o bordão "papi poderoso" e Loki é filho de um verdadeiro Deus. Isso denota um sentimento de inferiodade e uma necessidade imperiosa de alcançar os feitos paternos. Um superego formado à imagem de pais muito irreais acaba por tornar-se quase patológica. Felix ainda possui a questão da homossexualidade, advinda de um complexo de édipo invertido, no qual a criança do sexo masculino deseja o pai muito mais do que se identifica com ele.

    Vítimas ou não, independente da terminologia usada, ambos são crianças feridas, que encontram na arrogância e megalomania um sentido para a própria existência, que sentem ter sido roubados. A sensação de não pertencer a determinado lugar, como se toda sua vida fosse irreal é capaz de gerar atitudes extremas, mas no fim buscam apenas preencher o vazio do amor primordial.

Um grande abraço a todos.
Daniel Ramos
Psicólogo

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A marcha das vadias e a nova voz do feminino ferido

      De tempos em tempos, o clima vigente é invadido por novas ideias e irrupções espontâneas na psique coletiva, que modificam atitudes e comportamentos. Sempre que algo se estratifica, se tornando paradigmático, algo de novo surge, derrubando ou ao menos lançando uma carga viral no status quo vigente. Isso é o que acontece nas nossas vidas: sempre que nos tornamos obcecados, unilateralizados, nosso inconsciente, através da nossa sombra e complexos, nos aplica pequenos "golpes", de modo a compensar tal atitude, sempre visando a nossa própria integração.

     E assim acontece no coletivo. Sempre que um pensamento se torna claramente enraizado na mente coletiva, o inconsciente trata de apontar novas saídas, novas maneiras de proceder, pois o ser humano é um constante aprendizado, e é da nossa natureza, sermos seres evolutivos. Assim aconteceu com Darwin, ao apresentar um novo escopo a até então indiscutível teoria de Lamarck. Ocorre constantemente com a física quântica, tirando a física tradicional do lugar comum e obrigando seus teóricos mais tradicionais, a rever seus conceitos. E assim o é na sociedade em geral.

    Enquanto seres pensantes, somos razoavelmente recentes nesse planeta. Ainda "ontem"( em termos históricos) lutávamos por nossa sobrevivência em cavernas, e hoje tomamos as mesmas atitudes, mudou-se apenas a vestimenta. A igualdade entre os sexos,é muito recente, pois apenas a partir do anos 60, com a liberação sexual é que se começou a discutir abertamente esta questão, e ainda engatinhamos nela. O tratamento dado à mulher durante todo esse tempo é prova do quanto ainda beiramos o primitivismo. Nesse cenário é que podemos observar a atuação unilateral consciente ser derrubada por um novo aeon de ideias.

    No século retrasado, Freud passou a tratar surtos de histeria, que foram considerados o mal daquela época. A palavra Histeria é derivada de útero, o que já dá uma certa indicação de que o problema de um feminino ferido, querendo ter voz e vir à tona era o zeitgeist que se avizinhava. A mulher queria e necessitava ser notada; ter prazer e não apenas ser um receptáculo de fluidos e projeções. Sendo assim, as manifestações de um inconsciente a tanto reprimidas começam a eclodir nos momentos de vigília. A histeria é apenas um dos indícios de um novo colorido feminino,de uma sociedade acinzentada, dura e insensível. As aparições de Fátima, datadas da mesma época, a despeito da discussão de ser ou não ser uma manifestação metafísica, nos mostra o quanto o inconsciente coletivo desejava trazer de volta à sociedade os aspectos maternos sagrados.

    Se formos analisar o que nos diz nossa psique coletiva hoje ( dando um salto histórico, subscrevendo por hora tantos outros momentos históricos importantes), diversas manifestações acabam sendo nosso termômetro. O surgimento dos movimentos GLBT, ondas de valorização do corpo fora dos padrões convencionais, discussões que até então eram impensáveis em outras épocas podem nos dar a dimensão exata sobre a época que vivemos. Muitos dizem que é uma época de excessos, porém vou mais além: estamos vivendo uma época sem máscaras. Com as luzes acesas, não temos mais como nos esconder. Ou aprendemos a nos aceitar mutuamente, tal como fomos concebidos, ou nos isolamos em nossos próprios preconceitos.

   A marcha das vadias é uma dessas difusões coletivas, bem antenadas com o momento. Surgida espontaneamente, após declarações infelizes de que as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias (sluts) para não ocorrerem estupros, tal declaração foi a gota d'água para o criação do movimento. Na mesma barca, acabou-se por colocar nessa mesma lista assuntos como a sexualidade sem culpa e o novo papel da mulher nessa sociedade. Num contexto que sugere uma similaridade entre homem e mulher, a alma feminina busca integrar em si mesma todas as qualidades (e defeitos) que as fazem únicas. 

    
     A mulher moderna quer amar, gozar, trabalhar, liderar, ser feliz. Quer ser amada,acariciada,acolhida e respeitada. Nessa mulher residem as Amélias, Liliths, Cleópatras, Elis, Helenas...elas são tantas em uma só, e assim o é. E a cada uma cabe escolher o papel que lhe aprazer, ou todos, ou nenhum. É disso que se trata: Escolhas.

    O movimento supracitado é apenas um, dentre tantas novas formações que pretende abalar alguma atitude unilateral. Nada aparece sem um significado. Se uma estrutura assim surgiu, por certo é que não temos dado suficiente atenção a ela. Será que não necessitamos olhar com mais atenção para o feminino em nós? Sejamos homens ou mulheres, talvez as características positivas da Grande mãe estejam sendo chamadas para que possamos amar incondicionalmente, para que um dia possamos voltar ao grande útero universal.

Um grande abraço
Daniel Ramos
Psicólogo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

"Sonho que NÃO se sonha só...

    Após algum tempo sem postar, eis que volto de um breve interstício criativo, para voltar a expôr determinados temas que me são caros. Longe de mim esgotar determinado assunto, o que pretendo colocar são apenas breves explanações a respeito de como a ciência da Psicologia adentra temas do cotidiano. Para  reiniciar os posts, gostaria de escrever brevemente a respeito dos sonhos. Claro que um tema tão vasto e controverso não caberia num único post, portanto, pretendo voltar a esse assunto em diversas outras oportunidades.

   O que são os sonhos? Difícil responder a tal assertiva, pois trata-se de um assunt
o polêmico, que trespassa a humanidade desde a aurora dos tempos.Para muitos, os sonhos são uma espécie de vida paralela, onde temos contato com realidades impensáveis, deuses e seres mitológicos, cerceados por uma malha de figuras criadas pela imaginação humana. Os xamãs e grandes líderes espirituais seriam seres iluminados, com grande facilidade de acesso a essas dimensões, com ou sem estados alterados de consciência.

   De uma maneira geral, podemos entender os sonhos como um momento de relaxamento da psique, onde é passado a limpo tudo aquilo que tem acontecido nos momentos de vigília. Freud, que baseou grande parte do arcabouço de seu tratamento na interpretação de sonhos, os colocava como a repetição ou a realização, de desejos reprimidos e recalcados pelo Ego ao longo do dia. Portanto, uma maneira da psique se autorregular e dar vazão a vontades não satisfeitas.

   Foi C.G.Jung quem trouxe novas contribuições à interpretação dos sonhos. Em primeiro lugar, ao retirar a palavra interpretação e substituí-la por análise. Para Jung, um sonho não pode ser interpretado a nível simbólico, com conteúdos fixos, pois cada inconsciente trás à tona imagens condizentes com a realidade de cada um, e sim analisado, em uma aliança terapêutica com o paciente, onde este deve sentir e dialogar com as imagens formadas pela sua própria psique. Nesse caso, o terapeuta serve como um guia, e não como o dono do saber.

   Ainda para Jung, os substratos inconscientes sofrem influência tanto do inconsciente individual, quando do inconsciente coletivo, formando diversos tipos de sonhos. Existem os sonhos premonitórios, onde nosso Self, o centro máximo organizador da experiência humana,nossa porção divina, tenta nos alertar sobre alguma situação perigosa. Sonhos de morte e assaltos geralmente vem informar sobre atitudes cristalizadas, que precisam "morrer", e ceder lugar a novas formas de se conceber o mundo. Imagens de animais selvagens podem indicar repressão de instintos básicos, querendo vir à tona. Mas, alertando mais uma vez, os símbolos são individuais, e o sonho os utiliza como possibilidade para uma mudança de atitude. 

   Os sonhos são imagens produzidas espontaneamente pela psique objetiva, visando "alertar" o ego sobre possíveis atitudes unilaterais; aquela velha falta de atenção a prazeres básicos e pequenos momentos felizes. Até mesmo os pesadelos tem sua função ,como um tratamento de choque para um ego muito enrijecido, cujas imagens buscam tirar o EU da sua posição de conforto.

   Por fim, mas sem encerrar de vez o assunto, há os chamados Grandes sonhos, que seriam aqueles cujos símbolos estão mergulhados em significados ocultos ou mesmo de grande conteúdo numinoso, sagrado. São aqueles sonhos que por vezes, guiam grandes homens. A história conta que figuras como Moisés, Maomé e tantos outros decidiram seguir seu caminho após um grande chamado, visões reveladas durante o sono. Porém os grandes sonhos estão acessíveis a todos, pois  estamos imersos no mesmo inconsciente coletivo, e nele encontramos as mesmas imagens.

   Prestemos atenção aos nossos sonhos, pois eles são a porta de entrada para nosso mundo interior.

Um grande abraço
Daniel Ramos
Psicólogo

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Culpa, minha máxima culpa...

  
   Talvez um dos sentimentos mais motivadores do ser humano, equiparados apenas à sexualidade e o medo,é a culpa. Mas de forma diversa aos outros dois citados, ela pode ser amorfa, de conteúdo disfarçado e colorido desvirtuado. Podemos passar a vida toda tomando atitudes até mesmo automáticas, sem sabermos que estamos agindo por pura e simplesmente culpa. Mas de onde vem, pra onde vai, e quem controla os Quanta de culpa na consciência humana?

    O sentimento de culpa é antigo, datado dos primórdios do nascimento, concomitantes à formação do Ego, portanto, faz parte das estruturas mais arcaicas da nossa psiquê. M. Klein é quem mais define essa questão da culpa quando fala, em sua teoria, da questão das posições. Diferente de S.Freud, que dividiu a infância em estágios, Klein a dividiu em posições, somente duas, as quais nos alternamos durante a infância e a vida. 

    A primeira delas é a posição esquizo-paranoide. Seu mecanismo principal é a divisão entre o seio bom e o seio mal. Nessa fase, com o ego insipiente do recém nascido, há uma necessidade de se criar uma imagem divinizada do seio, como forma de escapar da angústia de aniquilamento. Porém, por volta dos seis meses, a criança passa a tomar uma maior consciência do mundo e a enxergar a mãe como separada dela e como um ser inteiro, e nesse momento, teme perdê-la, pois os ataques dirigidos contra o seio mal, na verdade foram dirigidos contra essa mãe. Daí advém a segunda posição, chamada de posição depressiva, cuja principal característica é a reparação. Portanto, nasce daí a semente do nosso eterno sentimento de culpa.

   Quem nunca teve a impressão daquele eterno peso no coração? aquele duradouro sentimento de nunca nos bastamos e que nada que façamos será suficiente? Não obstante termos um superego por vezes castrador, essa nossa tendência à reparação nos persegue, muitas vezes, inconscientemente durante toda a vida. Essa nossa culpa de um dia termos tentado destruir a quem nos deu a vida continua dando o ar da graça em boa parte dos nossos relacionamentos. Muitas vezes mantemos relacionamentos destrutivos apenas por culpa do sofrimento alheio ocasionado por um possível término dessa relação.

   Alguns, para se livrar das "transgressões" se entregam de maneira patológica a trabalhos voluntários. O voluntariado é maravilhoso, desde que seja algo vindo de boa fé e não como fuga para situações não resolvidas. Isso apenas mascara a dor, que irá aparecer sob a forma de outro sintoma mais à frente.

   A palavra Desculpa é uma tentativa de que alguém nos tire a culpa de alguma situação, mas a triste notícia é que ninguém pode fazer isso, a não ser nós mesmos. A maior dificuldade nossa esta em desculpar nossas próprias falhas. Junte isso a uma culpa que não é nossa, mas é colocada no nosso DNA cristão: a culpa pela crucificação. Passando longe das polêmicas sobre religião, o fato é que existe ali uma mensagem subliminar. Ao ver o Salvador crucificado, automaticamente nos remete à máxima de que o sacrifício foi feito em nosso nome, ( o que eu discordo, porém é assunto pra outro post) portanto, nada do que façamos irá nos livrar dessa imputação.

   E daí seguem suas ramificações: temos culpa de ganhar dinheiro, de ter sucesso, de sermos bons em alguma coisa. É como se nunca pudéssemos ser redimidos do pecado original. A solução? Consciência. Nada que é automático pode ser positivo, pois não gera reflexão. E se não gera reflexão, não gera aprofundamento. É apenas quando nos perguntamos o porquê da culpa de cada comportamento automato que existe a possibilidade de mudança.

   Portanto, não necessitamos da culpa para viver. Ela é importante nos primórdios da formação do nosso Eu, pois é ela quem auxilia na formação da nossa capacidade de se preocupar e reparar. Porém, não há necessidade de reparar a vida toda, o tempo todo, durante toda a eternidade. Sejamos felizes e que os grilhões da culpa não nos arrastem em seus desmandos.

  Para encerrar, uma música do grande Raul Seixas, que fala de alguém que tenta consertar o mundo a toda hora.
"Raul Seixas e Marcelo Nova: Carpinteiro do Universo"

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Os chamados da alma

   
  Os antigos,modernos, induístas, xintoístas, católicos,budistas e tantos outros concordam em uma coisa: dentro de cada ser existe uma centelha, uma fagulha divina que é o motor de combustível infinito de nossa existência através das eras: a alma. O nome varia, mas poucos duvidam que o corpo humano é constituído por algo a mais além de órgãos e vísceras.

   
   Houve um tempo, principalmente no Século 18 , em que se acreditou que o ser humano fosse apenas um amontoado de músculos e que tudo na vida pudesse se resumir a equações matemáticas. O mundo tornou-se cartesiano e assim, sistematizou-se todo o conhecimento. O Iluminismo trouxe enorme contribuição à área científica, tentando explicar os fenômenos reduzindo-os a causas mentalistas. O que trouxe um novo paradigma de conhecimento, também acabou por afastar da vida cotidiana, assuntos mais ortodoxos, como os meandros do sentimento e do espírito. O prisma iluminista tornou-se tão forte, que até hoje, tais assuntos são tratados como tabu pela própria academia.

   
  A ciência e o espírito permaneceram separados durante muito tempo, dialogando em paralelo sobre o mesmo assunto, sem admitir que fazem parte do mesmo plano de existência. A ciência afirma A, os alternativos, espiritualistas e religiosos afirmam B, e todos no fim, querem dizer C. Parece que aquilo que é da alçada da alma, não tem lugar no mundo empírico da universidade.

   
  Porém, muitos teóricos cultuados na academia não ignoraram por completo que o ser humano é controlado e regido por leis e princípios invisíveis. Desde Freud, que traçou seus estudos através de Josef Breuer, culminando na Psicanálise, cujo principal escopo é a teoria que somos principalmente controlados pelo nosso inconsciente, tivemos tantos outros que passaram sua lente sobre o desconhecido e não palpável. Dentre eles, talvez aquele que mais se aventurou por esses caminhos tenha sido C.G.Jung, cujas ideias muitas vezes foram rechaçadas pelo círculo acadêmico devido ao teor "esotérico" de sua obra. Jung adentrou por caminhos diversos e polêmicos, utilizando-se de conceitos alquímicos e da simbologia do Tarô como ferramentas na constituição de seu arcabouço teórico.

   Gosto muito de uma comparação do ser humano com um computador. A torre seria nosso corpo físico, a parte mais externa da máquina. A energia elétrica que a alimenta, o espírito. Os programas seriam nossa consciência, a inteligência que opera dentro da máquina e nossa alma, no meio disso tudo, seria o operador do computador, a inteligência suprema por trás de tudo isso. A alma é a nossa imago divina, nossa porção de deuses e deusas. A queda do paraíso nunca aconteceu: fomos nós que nos esquecemos de quem somos.

   
  Nossa alma ( ou Self, citando Jung) sabe o que é melhor em cada momento de nossas vidas. Como a inteligência que opera, ela sabe onde devemos estar, e o que viemos fazer nesse planeta. A grande dificuldade da vida começa quando o "programa" começa a discutir com o "operador". Como disse, não há dúvidas da divindade que habita em cada um de nós, mas há sempre a possibilidade do nosso eixo Ego-Self ficar bloqueado. Geralmente acontece quando teimamos em seguir nossa razão ou teimosia, ao invés de ouvir o nosso chamado interior. Isso bloqueia o fluxo de energia universal e interrompe o clamor da alma.

  
   É fácil reconhecer as pessoas que seguem o chamado da alma: elas estão ao nosso redor a todo tempo. Nem sempre são aquelas mais bem sucedidas financeiramente ou com o maior cargo da empresa, mas são aquelas que se reconhece no olhar, aquele brilho fulgurante de quem se atreveu a realizar-se de si mesmo. Fácil, difícil? Tudo é uma questão de começar. Um pequeno exercício: Quando foi a última vez que fizemos algo que realmente gostamos? Ou tiramos o dia pra não fazer nada? E o pior, quando nos perguntamos se estamos fazendo a coisa certa? A resposta é sempre aquela sensação de dever cumprido que nosso travesseiro tanto ama.Não há como fugir de nossa alma, nem dos nossos chamados e compromissos. Cedo ou tarde eles batem à nossa porta e a grande questão é saber se estamos ou não preparados para atender.


Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo.



domingo, 21 de julho de 2013

Idealize e decepcione-se

    
    Ídolos. São tantos e de tantas formas que fica impossível catalogá-los. Sejam monstros do rock, astros de cinema, gênios da ciência e literatura, todos de alguma forma são o auge daquilo que almejamos. São aqueles que chegaram lá em termos de talento e descobertas, e que servem para nos guiar e mesmo nos dar sentido a nossas vidas.

   A tendência à idealização é arquetípico do ser humano, estando presente desde o nascimento. Como afirma Melanie Klein, o recém nascido idealiza o seio como um objeto sagrado, capaz de lhe prover o sustento e a saciedade, no momento em que esse o deseja, criando-se assim o primeiro protótipo de relação idealizada. Na mente da criança, o seio(bom) é a epítome de tudo que é bom e maravilhoso, havendo para isso, a necessidade de que tal experiência seja guardada em algum lugar da psiquê do recém nascido, para protegê-lo das posteriores frustrações, que virão a constituir o oposto do seio bom, o seio mau. Portanto, levamos para o cerne de nossas vidas, esses objetos arcaicos, fruto de nossas próprias fantasias.

   Ao longo do tempo, vamos aumentando nosso escopo de relacionamentos, mas mesmo assim, ainda mantemos a semente dos objetos de idealização firmes em nosso inconsciente. Quando conhecemos alguém, enxergamos essa pessoa pelas nossas próprias lentes, que já estão "contaminadas" pelas nossas inclinações e visões de mundo. Projetamos características que achamos que estão ali, mas na verdade estão em nós mesmos, e no fundo acabamos nos sentindo frustrados quando a pessoa não cumpre com as tais das "nossas expectativas".

   Partindo dessa premissa, até concordo em termos com alguns autores que dizem que a paixão é uma espécie de surto psicótico. Numa paixão intensa, você distorce a realidade para que ela caiba na sua fantasia de mundo. Você enxerga coisas que não estão ali, vivendo uma condição especial de realidade quase paralela. Até mesmo a química cerebral se altera nas grandes paixões.

   Mas excetuando essa condição especial, elevar certas coisas e pessoas ao status de ideais, é até certo ponto, saudável. Significa que conseguimos manter intactas características boas, introjetadas pelo seio bom, o que dá margem para possibilidades de relacionamentos saudáveis no futuro. Porém, o pólo oposto, é o que faz a idealização ser negativa.

   Por vezes a idealização é tão intensa, que podemos nos sentir diminuídos perante um objeto tão supremo. Pequenos e impotentes que nos tornamos, uma atitude compensatória comum é a inveja. Destruir e denegrir o objeto é uma forma de escapar á imensa dor de sermos tão pouco diante de algo que nós mesmos criamos. Outra atitude comum é de querer igualar-se ao ideal. E digo desde já, que é uma competição injusta, pois esse ideal é inalcançável, criado pela nossa própria psiquê, muitas vezes como forma de punição.

  Idealizar é o primeiro passo para se desapontar. Em primeiro lugar, nenhum depositário de nossas projeções tem a obrigação de recebê-las. Nossa mente é uma máquina infindável de criar maçãs em terrenos de abóboras, e reclamamos por não colhê-las. Em segundo, a responsabilidade por criar nossos ídolos é toda nossa, baseada em nossa história, com o nossos já citados, objetos mais arcaicos.

 
Ter ídolos é bom. Eles despertam o melhor em cada um de nós. Mas é isso mesmo, atiçam características que são nossas, só estão projetadas fora. Porém, é sempre bom ter claro que pessoas são pessoas, sujeitas a falhas e idiossincrasias tais quais as nossas. Idealizá-las é uma atitude até certo ponto injusta, é tirar da pessoa a possibilidade de ser ela mesma, para se adaptar ao nosso padrão de mundo. E o colorido da vida está realmente na diversidade.

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O chiste e o sexo

   Quando um estrangeiro olha as imagens do carnaval brasileiro logo imagina a sodomia desenfreada que ocorre nos quatro dias de fuzarca na maior festa pagã do mundo. Não só os gringos, mas nós mesmos acabamos contaminados de certa forma pelo clima que se instala durante esses dias. "Carna-vale" ou seja, vale tudo na carne, nesses dias onde as máscaras caem e as pessoas revelam desejos íntimos que ficam guardados 361 dias por ano. A grande questão é: para um povo aparentemente tão sensual como o brasileiro, ser liberal apenas quatro dias por ano é uma porcentagem pequena. Mas por quê?

   Por que a grande verdade é que o povo brasileiro é um povo reprimido sexualmente. Nossa carga judaico-cristã nos enche de moralidade e vergonha . O prazer no sexo, o gozo e o orgasmo, muitas vezes vem acompanhados de uma sensação de culpa massacrante. Todo nosso passado, de uma corte portuguesa, de forte carga religiosa, trouxe um colorido vexatório ao ato sexual. Não que a corte portuguesa fosse um exemplo de moral, mas como tudo era proibido, as coisas eram feitas na surdina, no cair da noite. A pureza indigenista, deu lugar ao pudor sobre o próprio corpo.

   Atribuímos sexo à causa última do encontro pessoal; quando não o usamos como moeda de troca. A sociedade impõe uma moralidade casta, uma fidelidade obrigatória e prega a não promiscuidade. Claro que o sexo promíscuo e sem cuidado é um vetor para doenças, porém é tão doente quanto, manter relacionamentos castos, baseados no medo de uma moral e de uma castração externa. Temos medo de que uma entidade cruel irá nos punir ou nos julgar se dermos vazão aos nossos desejos mais profundos, e por consequência, muitos passam a vida toda frustrados, com vergonha de conversar com o próprio parceiro sobre suas preferências.

   E é na relação que as coisas se complicam. Quando não há diálogo entre o casal, não há possibilidade de se expôr as fantasias; o relacionamento saudável é aquele onde ambos podem se desnudar, sem medo. O desnudar, nesse caso, é o despir-se de preconceitos e julgamentos e aceitar incondicionalmente. O problema é a carga afetiva e coberta de preceitos com que chegamos aos relacionamentos. E por receio de falar de nossas idiossincrasias, ambos acabam-se por refugiar-se nas suas fantasias e deixam de viver no real.

   O europeu é muito mais liberal. Embora lá não se veja tanta "pele" como aqui ( até mesmo por uma questão climática), o povo de lá tem muito menos embaraço quando o assunto é sexo. As possibilidades de exploração da sexualidade e das muitas formas de vivê-la não são assunto velado. Já na América, as coisas são diferentes. Determinados países classificam um filme de tiroteio como censura "14 anos" e colocam classificação "madura + de 18" quando o mesmo filme mostra um seio. É um opróbrio do próprio corpo.

   O brasileiro também tem seus pudores com relação ao conluio. A prova disso é o sem número de piadas sexuais que fazem os programas humorísticos. A Psicanálise coloca o chiste como um mecanismo sob o qual, muitos conteúdos inconscientes se manifestam. E tudo aquilo que se teme, ou se exclui ou se faz piada, que é uma maneira de manter seguros, determinados temas que são caros às consciência. E disso, a TV está cheia.

   Freud até tinha razão em dizer que a causa última da existência humana é a sexualidade. É inegável a força que a energia sexual possui sobre o ser humano, quer demos vazão a ela ou não. Os antigos já cultuavam e alguns ainda cultuam a força da energia de Kundalini, que é a energia sexual, que de tão poderosa, pode ser canalizada para cura. O sexo tântrico, que dizem, podem até mesmo fazer com que o ser humano atinga o estado de Nirvana.

   Enfim, sexo é liberdade, saúde, felicidade. É não se prender a culpa, rótulos e estereótipos. É ter plena consciência do corpo e da possibilidade de troca com outro ser humano. É não confundir com libertinagem e promiscuidade e saber transitar bem nessa linha. E que sejamos seres humanos livres de amarras

 Por fim, uma música para ilustrar um pouco do que foi escrito no post.
"Rita Lee: Amor e sexo"
http://www.youtube.com/watch?v=HiwfydbBtCA

Abraços a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O ECA da discórdia

   
   A constituição federal de 1989 marcou profundamente a história brasileira por ser uma constituição de cunho humanitário, que passou a vista sobre determinados setores sociais, outrora estigmatizados ou ignorados. Nessa esteira vieram, dentre outros, os estatutos do idoso e o famigerado e agora discutido Estatuto da criança e do adolescente. As crianças historicamente sempre foram tratados como adultos em miniatura e os adolescentes nem sempre existiram enquanto fase psicossocial em discussão. Na teoria, o ECA discute questões importantes e trás à tona pela primeira vez na história da nação, a criança e o adolescente como cidadãos de direitos, aos quais se devem respeito como pessoas em situação peculiar de desenvolvimento.

   Pela primeira vez também, as crianças e adolescentes podem e devem ser ouvidos nos casos de adoção e guarda, tem direitos de estar nos logradouros públicos, de contestar critérios avaliativos, de ser tratadas com respeito, de desfrutar de lazer e dignidade. Com relação à lei, não podem ser penalmente responsáveis se menores de 18 anos, apenas sujeitos a medidas de sócio-educativas. Na teoria, a lei funcionaria perfeitamente, porém, já sendo polêmico, na prática, muita coisa não se mostra eficaz.

   Falar em adolescência como fase de vida, só a muito pouco tempo passou a estar na roda de discussões, portanto, ainda se engatinha no tocante ao tratar essa faixa etária. São pré-adultos? São crianças tardias? Tudo depende do referencial familiar, mas também do que se espera deles. Nem mesmo os próprios adolescentes sabem onde se encontram nesse conflito de gerações e portanto, agem com dificuldade nesse meio. No ECA, coloca-se muito a questão do direito, e como tal, o jovem cobra ser tratado como cidadão, o que é plenamente correto, porém a falta de limites entre o que é educativo e o que é protetivo, previstos na lei, acabam por fortificar o narcismo inerente ao adolescente. É o bom e velho "eu posso tudo e não devo nada".

   Muitos professores relatam ter dificuldades em sala de aula quando precisam chamar a atenção ou serem mais enérgicos. O discurso "você não pode me desrespeitar, está no ECA!" também é um mantra comum. Por isso se faz necessária uma discussão mais aprofundada sobre o tema e sua abrangência. Como tudo que é novo ( em termos históricos, ainda não fez 30 anos de estatuto) ainda cabe aprimoramento e controvérsias, e embora a lei seja bem escrita e fundamentada, a sua aplicação nos diversos contextos pode e deve ser revista.

   O fundamento do ECA é competente e correto; tratar nossas crianças e adolescentes, que são o futuro da nação, como cidadãos em desenvolvimento, direcionando políticas públicas que privilegiem essa proteção é dar um passo enorme para criar cidadãos conscientes. Porém, da maneira como se encontra, o que se apresenta é uma imperiosa necessidade de afastamento de qualquer forma de responsividade aos adolescentes, a quem pode se atribuir ato infracional, mas cujos mecanismos de reabilitação social não se mostram efetivos. 

   A redução da maioridade penal é assunto que tratarei em outro post, mas vale a pena citar brevemente que os nossos adolescentes estão perdidos e o estatuto, ao que parece, tem apenas assinado embaixo que seus atos não terão consequências danosas. Não sou a favor de punições severas, mas sim de uma sociedade menos permissiva, mais coerente com seus atos, que trate com amor, mas que seja exemplo de confiança e continência para esse jovens.

   
   Não acho que o ECA precise ser revisto, mas a maneira radical como tem sido tratado, sim. Levar tudo a ferro e fogo tem criado uma geração despreparada para lidar com adversidades e as possíveis consequências de suas atitudes. Respeito e dignidade não são sinônimos de permissividade. Nossas crianças e jovens ainda precisam de educação e acima de tudo, exemplos!

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A classe média e o sustentáculo de um sistema instável

   No significado da palavra, Médio é aquele que intermedeia duas instâncias, que se interpõe entre duas metades. Médio é também aquele que se encontra no meio de algo ou alguma coisa. Todas essas definições podem se encaixar perfeitamente naquela que se convencionou chamar de "Classe média". Na história da humanidade, a classe média teve grande influência, principalmente quando a burguesia ascendeu como classe emergente, exigindo mudanças no status quo da sociedade. O surgimento do comércio reorganizou a vida na Europa, trazendo a possibilidade de mobilidade de classes sociais, até então pré-determinadas e polarizadas entre povo e nobreza ( ou qualquer nome que se desse a uma classe dominante). Munida do principal poder de fogo do mundo, o capital, a burguesia deixou de ser vista como subclasse para ser tratada como emergente e preocupante.

   É inegável que a classe média é sempre o termômetro das maiores mudanças populares ocorridas na história da humanidade. A revolução francesa, foi produzida pelo povo, simplesmente pela condição miserável em que se viviam à época, porém, o pensamento era burguês. A inconfidência mineira, fortemente influenciada pelos ideais iluministas, foi encabeçada por estudantes de classe média alta, inconformados com a situação do Brasil da mineração.  E assim foram tantas outras, sejam elas revoluções de cunho constitucionalista, cultural, sexual, o fato é que as mudanças mais significativas acontecem quando a classe média resolve se movimentar.

   Somos seres desejantes;é da nossa natureza querer algo a mais, e se assim não o fosse, ainda estaríamos vivendo nas cavernas.  Sabendo disso, o mercado capitalista, que necessita da alimentação monetária constante, estimula o comércio, instigando exatamente essa natureza do querer do ser humano. E a classe média é o principal alvo dessa, por vezes,desleal competição. O mercado vende um mundo para o cidadão médio, que ele deseja, mas que não pode ter, mas só será feliz se o tiver, e assim irá pagá-lo em suaves 35,40,60 prestações, contribuindo para a retroalimentação do sistema capitalista.O mundo colorido prometido à classe média mostra-se uma armadilha. As dívidas astronômicas no cartão de crédito e o consumo exagerado por produtos mantém o mercado aquecido.

   O grande medo das classes B e C( embora eu discorde dessas classificações) é cair de padrão de vida, e para isso, fará de tudo para manter-se no mesmo nível, mesmo que às expensas de muita coisa. É a classe social que paga mais impostos, que tem mais gastos e mesmo assim, aquela que menos enriquece. As classes menos favorecidas são auxiliadas por políticas de assistência,e no frigir dos ovos, gastam bem menos que a classe média. Já a minoria no topo da pirâmide também paga impostos equivalentes, com a diferença básica do nível salarial, e apesar de  também pagarem taxas abusivas, alcançaram um patamar desejado e lá se mantém. Então que não digam que nossa sociedade não é estamental, pois o que se vê é uma mobilidade muito pequena de classes sociais.

   Portanto o cenário que se mostra é: as classes menos favorecidas satisfeitas com políticas de suposto auxílio e pouco fazendo pra mudar, satisfazendo-se com o lugar comum, de séculos e séculos de assistencialismo, que não nego, tenha seus méritos, mas que deveria ser apenas um trampolim para algo maior. A classe A mante
ndo-se no topo, bem aderida ao sistema,e a classe média, no proscênio de todo esse teatro, rebolando pra sustentar o sistema com uma mão e sobreviver dignamente no outro.

  O grande agente de mudanças de uma sociedade é a classe média. É ela que se levanta quando os governos se tornam opressores e as políticas públicas abusivas. Demorou quase séculos, mas agora finalmente a nossa classe burguesa está saindo do lugar comum. Começamos a perceber que viver num mundo de ilusão, de "ter", não garante uma vida melhor. Fechar a janela do carro enquanto todo um cenário vivo passa do lado de fora, é ignorar o óbvio. Acordando a classe média, por conseguinte, toda a sociedade se modifica.

Grande abraço e que todos possamos sair do lugar comum
Daniel Ramos
Psicólogo


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Homenagem

Homenageando o grande Wagner Borges, vou postar um texto dele que recebi por email. Grande abraço a todos
Daniel Ramos, Psicólogo

TOQUES ETÉREOS NO CORAÇÃO – III*

Aquilo que dá no coração...
Não é coisa comum.
É algo que desce no Céu, dentro da gente.

Aquilo que dá no coração...
Não tem tempo ou idade.
É coisa especial!

Aquilo que dá no coração...
Não é branco, negro, amarelo ou vermelho.
Na verdade, têm a cor da Luz.

Aquilo que dá no coração...
Ninguém entende...
Porque não se explica, só se sente.

Aquilo que dá no coração...
Tem a capacidade de dissolver as trevas da solidão...
Porque é grande o poder de cura do Amor.

Aquilo que dá no coração...
Acende os chacras**, de formas admiráveis...
Porque o Amor chama a Luz.

Aquilo que dá no coração...
Só o Papai do Céu sabe...
Porque Ele sabe o que cada um é!

Aquilo que dá no coração...
Transcende o tempo e o espaço...
E faz os olhos ganharem o brilho do amanhecer.

Aquilo que dá no coração...
É alegria que honra a Vida.
E quem ama, sabe e compreende.

P.S.:
Aquilo que dá no coração...
E que faz o Ser viajar nas ondas de um Grande Amor...
Ah, só o Papai do Céu sabe!...


Paz e Luz.  

- Wagner Borges – mestre de nada e discípulo de coisa alguma.
São Paulo, 28 de dezembro de 2012.

domingo, 23 de junho de 2013

Luto e desapego

   Da infinita sabedoria popular do escritor Ariano Suassuna, dando voz a Chicó, um de seus mais icônicos personagens, dizia a todo momento na obra "O Auto da Compadecida", que tudo que é vivo morre! As frases em tom de troça do anti-herói resumem de certa forma o que se espera da única e grande verdade imutável na vida. Por mais paradoxal que seja,o medo da morte é o que nos move para a vida. O receio de não estar vivo no dia de amanhã é a mola propulsora para levantarmos todos os dias do colchão em busca da nossa própria sobrevivência. Trabalhamos, comemos, reproduzimos, e...morremos. O dia fatídico chega para todos nós, e por mais que queiramos adiar tal pensamento, um dia o abraço de Thanatos nos contemplará. 


   A civilização ocidental, por ser marcadamente mais individualista do que a oriental, tem muito mais dificuldade em aceitar a morte e as perdas. Muitas religiões orientais pregam a morte como um renascimento, um despertar para um outro mundo, diametralmente oposto ao que ocorre no ocidente, onde amargamos o luto por dias,meses, anos. O trabalho psicológico com as perdas é muito mais dispendioso energeticamente para nós. As religiões pentecostais prometem um mundo melhor do outro lado, o espiritismo apregoa uma mudança de consciência, um existir eterno em outros planos, mas mesmo assim, ainda tememos a perda. Mas qual o motivo de tanto sofrimento?



   O luto tem marcadamente cinco estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Cada um destes estágios tem suas características específicas. Determinadas pessoas podem ter mais facilidade em alguns momentos do que em outros, seja em virtude de filosofias de vida ou mesmo de aceitação pessoal.  O que ocorre em muitos casos é que a pessoa pode acabar ficando fixada em algum desses momentos. A negação é o passo inicial, onde, dado o choque da perda, nossa psique quer negar a todo custo o acontecido. A raiva, também reação bastante natural, é onde procuramos achar um culpado para o ocorrido. A barganha é quando a família ou o doente terminal se apegam a promessas ou votos, como meio de salvação. A depressão vem como consequência, após notarem que todas as tentativas anteriores se tornaram infrutíferas, para finalmente culminar na aceitação, quando o ser humano consegue se despir dos grilhões que o prendem.



   Aceitar a perda, e não falando necessariamente de morte, é algo que demanda tempo e vontade. Por um período a pessoa se retrai do mundo, retira seus interesses dos objetos externos. Um trabalho de elaboração energética precisa ser refeito, pois tanto o mundo interno, como externo, foram modificados. Pessoas, coisas e situações que ali estavam, agora já não estão mais, e fica difícil até se reconhecer no espaço vital. Porém, caso não se configure um caso de extrema depressão, a vivência da perda deve ser sentida e elaborada e a cada um deve ser dado o tempo necessário. E claro, o buscar ajuda é importante.



  As reações ao luto começam a ficar mais perigosas, quando além das reações citadas acima, instala-se também uma profunda melancolia. Tal estado pode ser confundido com as próprias reações do luto, exceto por serem mais intensas. Geralmente, vem acompanhada de sentimentos de culpa e baixa-estima, e uma grande tendência a idealizar o objeto perdido. Tais atitudes são bastante comuns em términos de relacionamentos, e demandam um pouco mais de cuidado do que o luto. Ambos estados requerem atenção, mas o luto é uma reação mais natural do que a melancolia.



  O desapego, que muitas filosofias e religiões apresentam, só pode ser vivenciado de bom grado se for inteiramente aceito. Não há, de forma alguma, como haver desapego se ainda houver fixação ao objeto perdido. Desapegar-se simplesmente, sem que haja um diálogo interno com a coisa perdida, é tapar o sol com a peneira, pois a dor da perda vai reaparecer em outro lugar, sob a forma de outro sintoma. Desapegar é elaborar e isso é um trabalho diário. Se viver é morrer um pouco a cada dia, desapegar é saber que nada nos pertence e fazer o nosso melhor a cada dia.Aproveitem o dia de hoje...pois é só o que nos resta.



Para encerrar com música, uma canção que trata de luto e desapego de uma maneira extremamente poética.
"Legião Urbana: Love in the afternoon"



Um grande abraço a todos
Muita paz e luz
Daniel Ramos
Psicólogo

sexta-feira, 21 de junho de 2013

...meu mundo e nada mais.O egoísmo na hora das manifestações

   Não há como mudar de assunto. Sem querer ser pedante ou repetitivo, a forma como as manifestações tem tomado conta do Brasil não devem ser retiradas de foco seja pelo lado bom ou não. Vale ressaltar as belas imagens da multidão pacífica adentrando à avenida Paulista, infelizmente maculada em outros lugares por cidadãos ignóbeis, que se aproveitam de uma mobilização social para promoverem atos de puro vandalismo e egoísmo. É lamentável, mas nós merecemos, pois isso é fruto da má educação e de uma falta de consciência ética e moral por parte da grande maioria da população, que se encontra em estágios retrógrados com relação às normas sociais.

   O Psicólogo Lawrence Kohlberg (1927-1987) responsável pela teoria do desenvolvimento moral do ser humano, fala de "estágios" desse desenvolvimento. Resumidamente, ele fala que a moral no ser humano são maneiras de raciocinar a respeito de situações, e que se espera que a pessoa vá adquirindo novas formas de pensar e se portar diante do mundo conforme amadurece. As respostas dos sujeitos perante os dilemas da vida mostram a forma como esse se mostra perante o mundo. Há três níveis de consciência divididos em seis estágios.

   O primeiro nível é o pré-convencional, cujos estágios pertencentes são:1-orientação para punição e obediência e 2- Hedonismo instrumental relativista. Nesse momento, o indivíduo ainda não tem claras as regras de convivência para o bem comum, importando apenas o prazer pessoal e a punição por seus atos. Se um ato foi punido é por que foi mal, se não o foi, é sinal de que foi considerado bom. É nesse estágio que se encontram as crianças e uma boa parte dos marginais e delinquentes, muitos dos quais puderam ser vistos nas passeatas, transmitidas pela mídia. Tais sujeitos precisam de uma moral imposta de fora, sem qualquer noção de reciprocidade ou respeito. Ou então, utilizam-se de uma moral própria, apenas afeita a satisfação do prazer pessoal. Foi o que apareceu nas imagens veiculadas por todos os cantos, nos últimos dias. O que se viu, além é claro, de pessoas de bom tom e consciência, lutando com sentido e sem violência, por mudanças no nível macro da sociedade, foram determinados indivíduos agindo por puro egoísmo, utilizando-se dos motivos pessoais para esbanjar violência e depredação.

   
A fixação nesse estágio pode ser a responsável pelo grande atraso social que se vê. O indivíduo não adquire uma noção de grupo, não incorpora a ética e moral como meios de vida. Para essas pessoas, não há motivos evidentes de que ser um cidadão ético traga alguma vantagem, pois é mais fácil viver pelo próprio prazer e obter ganhos imediatos, do que abdicar disso em prol do bem comum.
   
   Para Kohlberg, a solução é que tais pessoas consigam, através da tomada de consciência e educação, atingirem níveis mais elevados de moral, que são os níveis Convencional e Pós-convencional. No segundo nível, o Convencional, tem-se como estágios respectivamente 3- Moralidade do bom garoto, de aprovação e das relações interpessoais e 4-Orientação para lei e para ordem. Nesses estágios, que é onde se encontram uma boa parte das pessoas, o comportamento moralmente correto é o que leva a aprovação dos outros, a uma ordem social com papéis definidos. Noções de justiça já são incorporadas ao sujeito, porém, há pouca mobilidade e plasticidade na interpretação do certo e errado. É tudo muito "preto e branco", onde a justiça social sobrevém os valores pessoais.

   Por fim, no nível pós-convencional, que segundo o autor, poucos indivíduos conseguem alcançar, é onde se localizam pessoas como Gandhi, Jesus Cristo, Marthin Luther King. Os estágios 5 e 6 que correspondem respectivamente a Orientação para o contrato social e Princípios universais da consciência, a pessoa tem a noção de que as leis podem ser injustas e que, não sendo possível a mudança dessas leis pela democracia, ainda assim há a resistência, a luta e a desobediência civil, de forma justa.

  O que se viu nessas manifestações foi um pouco de tudo. Desde pessoas hedonistas e egoístas, agindo pelo próprio bem,passando por aqueles que querem mudanças para uma melhor ordem social do bem comum e  aqueles que entendem que o Brasil precisa de mudanças e reformas e que as leis não funcionam para todos. De qualquer maneira, as mudanças, para acontecerem no nível desejado, tem que primeiro acontecer no interior de cada um. Seria maravilhoso se todos pudéssemos chegar ao estágio dos Princípios universais da consciência, mas isso só será alcançado quando todos os estágios forem vividos e transpassados.

Muita força para todos os envolvidos e que esse Brasil mude de vez
Daniel Ramos
Psicólogo

terça-feira, 18 de junho de 2013

...e aquele garoto que ia mudar o mundo...

    Dando continuidade aos posts falando dos protestos e da nova onde que se anuncia no cenário político brasileiro, algumas situações tem me chamado a atenção. As manifestações ocorridas nas grandes cidades, tem como participantes, em boa parte, jovens de classe média e classe média alta. É interessante o fato de que essa mesma faixa etária era tida como alienada dos problemas do Brasil é quem está puxando todo um cordão de insatisfeitos, ajudando a dar voz a cor aos protestos. Porém não é sobre esse fato( ok, também é) que pretendo abordar nesse post e sim o fato de que algumas pessoas,da minha própria geração, parecem ter perdido completamente a capacidade de protestar.

   Há que se reconhecer que a minha geração foi um momento de transição. Fomos bombardeados pelo medo da ditadura, vivido pelos nossos pais e avós, pelo medo da AIDS, da violência, do desemprego, etc...minha geração foi treinada para ser uma geração feita para não protestar, mas mesmo assim, ao nosso modo, protestávamos. Podia ser uma revolta silenciosa, sem mudanças contundentes,mas até certo ponto sabíamos o que estava acontecendo. Embora boa parte insistisse em ignorar, havia muitos colegas com os quais convivi que eu apostaria que seria um grande revolucionário, ou no mínimo, alguém capaz de modificar situações estratificadas. Porém, para minha surpresa, vejo esses mesmos outrora jovens, mudando seu discurso, para algo mais brando e prolixo.

   Tal mudança pode se explicar através de diversos paradigmas: um dos pontos a ser ressaltado é a própria revolta comum da adolescência. Nesse período, é natural nos levantarmos contra a autoridade, seja dos pais, dos professores e da sociedade como um todo. Estamos nos colocando ainda como seres pensantes, e portanto, tateando nossos limites e potencialidades. É fácil portanto, encontrarmos um inimigo em comum e fazermos dele depositário de nossas próprias inquietudes. Nesses bons tempos é que surgem os presidentes de grêmio estudantis, que encantam os colegas com discursos efusivos, os representantes de classe, os talentos incipientes. Mas aí termina a adolescência, o colegial, vem a faculdade e muitas coisas mudam.

  Não mudam para todos. Uma boa parte ainda continua firme em suas convicções. O clima da universidade é propício para discussões acaloradas e plantio de ideias, que podem render frutos mais à frente. Os (bons) professores são aqueles que incitam ainda mais essas mentes a produzirem mudanças. Findado o período universitário, chega o momento de se deparar com o mercado de trabalho. Aí realmente as coisas começam a mudar de verdade.Nem sempre aquilo que foi ensinado e praticado nos meios acadêmicos será aplicado no mercado de trabalho. Criadores serão podados por patrões retrógrados. Revolucionários engolidos por sistemas estáticos e arcaicos. Portanto, o espírito de luta começa a ser mitigado.

   O Psicanalista Erick Erickson, em sua teoria, coloca que cada fase vivida pelo ser humano possui suas formas positivas e negativas de se reagir, bem como sua força básica. Falando de adolescência, o desafio básico perpassa pela coesão da identidade X coesão de papéis e que a força básica é a fidelidade. Por isso, nessa fase tem-se a necessidade de se agarrar a ídolos e ideais para uma melhor e mais saudável passagem pela adolescência. Já na idade jovem adulta, que Erickson coloca como sendo dos 18 aos 35 anos, o conflito vem entre Intimidade X Isolamento e a força básica é Amor. Talvez isso consiga explicar o fato de que muitos "revolucionários" do período de colégio e faculdade, começa a pensar que talvez a luta em campo não seja o melhor caminho e que está na hora de largar e as armas. Entra então a fase seguinte, da idade adulta propriamente dita, cujo conflito básico se encontra entre generatividade X estagnação, tendo como força básica o cuidado. Aí sim, o garoto que ia mudar o mundo, agora é um pai de família respeitado pela sociedade e por vezes, volta a fazer parte do mesmo ciclo que outrora combateu.

   Tais estruturas são arcaicas e arquetípicas, porém acredito também, que num momento de mudanças, há que se buscar de volta, seja na faixa etária que for, aquele jovem idealista, com sonhos na cabeça e flores nas mãos.

Não há como encerrar o post sem a música que deu origem ao seu título
"Cazuza: Ideologia"
http://www.youtube.com/watch?v=yUYEkrBfDrA&hd=1

Muita força e luz para todos
Daniel Ramos
Psicólogo


domingo, 16 de junho de 2013

A voz da coletividade

   Os protestos ocorridos recentemente em São Paulo e no Rio de Janeiro em virtude do aumento da passagem não são necessariamente uma novidade. Manifestações públicas são até certo ponto comuns, porém, estas em particular me chamaram a atenção. Em primeiro pela capacidade de organização e mobilização, auxiliados pelo advento e popularização das redes sociais, o que demonstra que o jargão inscrito no nosso hino nacional "deitado eternamente em berço esplêndido" vem caindo por terra. Segundo por demonstrar também que o brasileiro começa a dar um grande passo rumo a uma nova tendência, de se posicionar ativamente frente a tantas coisas que outrora a população aguentou calada.

   Contra os protestos sempre pesou o fato de termos no nosso DNA os eventos ocorridos na ditadura. As prisões arbitrárias e os espancamentos até hoje tem seu reflexo no nosso inconsciente, e nos remete, a cada imagem de protesto ocorrida na televisão, àqueles tempos negros. A polícia continua utilizando-se dos mesmos métodos. É uma força-tarefa embrutecida e truculenta, sem cerimônia na hora de distribuir safanões e "borrachadas", agindo da mesma forma que alguns anos atrás. O direito de manifestação e greve faz parte da nossa constituição federal e não deveria ser reprimido com tanta violência.

   Evidentemente que há pessoas que se aproveitam disso para espalhar atos de vandalismo, escoradas pela multidão, para que cometam crimes e passem despercebidas. A essas pessoas acredito que a polícia deveria intervir com mais rigor, e não mais violência, que fique claro. O protesto feito com sentido é a voz do povo perante uma situação de conflito, buscando mudanças. Não há manifestações de grande cunho popular se a causa não for de interesse coletivo.

   Mas o que vale a pena ressaltar é o motivo dessa nova mudança. Era de aquário? Crianças índigo? Crise de início de século? Tudo isso são conjecturas que se unem aos fatos que temos visto, mas o grande pilar de tudo isso se chama TOMADA DE CONSCIÊNCIA. Demorou alguns anos, mas aos poucos o povo brasileiro vai saindo do lugar do assistencialismo, do coitadinho e assumindo seu protagonismo. Nós  somos um povo jovem, ou seja, cronologicamente ainda somos adolescentes, e como tal, estamos buscando nossa identidade, passando por aquele momento de revolta e balanço dos alicerces.

   Durante anos, fomos tratados como crianças ignóbeis, mas tal qual os imberbes, um dia saímos do estado de dependência plena para atingirmos nossa emancipação, e para atingirmos este estágio, é necessário muita luta e luto. Luto pela infantilidade enquanto povo, que não se responsabiliza pelos atos e delega seu futuro aos governantes. A mudança passa pelo fato de saber que os governantes apenas estão ali para servir e não ordenar. E a luta por essa independência, pois assim como muitos pais protelam a independência dos filhos, nossos "pais" governantes vão lutar com unhas e dentes para encerrar essa nossa revolta e nos manter eternamente como crianças obedientes.A sombra coletiva do brasileiro, de passividade, vai tomando contornos agressivos, o que é natural,  pois só agora estamos nos dando conta de nossas potencialidades. Demora um tempo para aprendermos a lutar por nossos direitos, protestando, entretanto com mais efetividade e sem tanta perda energética.Na coletividade, temos força, porém, tendemos a nos deixar a guiar pelo grupo, perdendo um pouco de nossa individualidade para dar lugar aos interesses gerais.  

Para encerrar, uma música icônica do cantor Sérgio Sampaio, que trata daquela nossa imensa vontade de colocar tudo pra fora, de colocar nosso "bloco na rua"

Muita paz( e luta com consciência) a todo
Daniel Ramos
Psicólogo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Amor e alteridade

    Camões dizia que "...o amor é fogo, que arde sem se ver" e já naquela época, o aclamado romancista português foi muito feliz na sua definição. Nem de longe foi a última ou a primeira, porém tal frase traduz perfeitamente o que se pode entender por amor. Diferente da paixão, que para alguns teóricos se assemelha a um surto psicótico, pois você enxerga coisas que não estão ali, e atribui características suas à pessoa, como uma neurose narcísica, típica dos surtos, o amor é algo que se constrói com o tempo, com a intimidade e principalmente: com a Alteridade.

    Por alteridade podemos entender a diferença entre o "eu" e o "outro", aquela membrana que nos separa e nos torna indivíduos. Porém, para chegar ao estágio da alteridade, há que se passar por diversos outros momentos. O primeiro momento na vida de um ser humano, quando do nascimento, é o estágio urobórico, que nos remete à serpente que morde a própria cauda, num sinal de perpétuo infinito. Nesse estágio, somos seres indiferenciados; a barreira entre Eu e ambiente não foi estabelecida. Somente com o passar do tempo e com as subsequentes  frustrações, começamos a evoluir para os outros estágios: O matriarcado e o Patriarcado, respectivamente. Não vou me deter muito nesse momento em procurar explicar sobre esses estágios, pois é um assunto assaz complexo, que exigira um post exclusivo, mas por hora, basta acrescentar que esses dois momentos são marcados na vida do indivíduo como características masculinas e femininas. No matriarcado, o indivíduo ainda está ligado à Grande mãe, portanto, ainda não se responsabiliza totalmente por seus atos. Já no patriarcado, começam a se instituir as regras e a moral para uma boa convivência. Aí sim, passados esses 3 estágios, o ser humano mentalmente e emocionalmente saudável se encontra em possibilidade e viver na alteridade. Mas o que é viver na alteridade?

   Viver na alteridade é aceitar o outro, o que não significa concordar o tempo todo ou dizer "sim senhor para tudo", é simplesmente entender que vivemos num mundo multiplural e multicultural, onde cada pessoa se encontra num estágio de evolução diferente e mesmo, possui gostos e idiossincrasias distintas. Se nem nossos dedos das mãos são iguais, em mundo com bilhões de pessoas, porque também seríamos? Agora, o que tem a ver o amor, com a alteridade?

    O amor existe, independente de classe social, idade, credo, porém, como foi citado acima, o amor pode ficar preso em algum dos estágios supracitados. O amor urobórico é o amor narcísico, onde cobramos do outro, aquilo que vemos em nós mesmos e nos sentimos frustrados quando este não corresponde a nossas expectativas. O amor matriarcal é aquele que pode ser ao mesmo tempo afetuoso e castrador, unindo ao mesmo tempo as características da Grande Mãe e da Mãe terrível. O Patriarcado já começa a dar um passo em direção a alteridade, quando já inicia uma responsabilização do outro por suas próprias atitudes.

ESCOLHAS SEXUAIS

    A sociedade passa por um momento de transição, de revisão de valores, o que é natural em todo começo de século. A questão das escolhas sexuais para mim, nada mais é do que um passo na direção da alteridade, falada no início. Aceitar o outro, viver na diferença é um exercício diário. Homossexualidade não é doença, tampouco distúrbio de comportamento, como apregoam algumas religiões e até mesmo alguns teóricos. A homossexualidade existe até mesmo na natureza, portanto, faz parte do plano original da criação. 

    Freud categoriza a escolha do objeto de amor de duas maneiras: A escolha anaclítica, onde a escolha do objeto amoroso é alguém diferente do indivíduo, indicando um ego saudável e diferenciado, que atingiu sua maturidade, passando para a fase do narcisismo secundário. E a escolha narcísica, onde o sujeito escolhe como depositário de suas paixões, alguém exatamente feito à sua imagem e semelhança. Porém a questão a igualdade não depende do gênero sexual. Na minha opinião, as pessoas são configurações energéticas, tal qual a imagem dos arquétipos junguianos. Sendo assim, um relacionamento homossexual pode perfeitamente versar sobre a categoria de escolha de objeto anaclítica, pois o que importa é que ambos mantenham a individualidade e a eterna consciência de que o outro não é o reflexo distorcido da sua imagem.Um relacionamento homo-afetivo possui os mesmos problemas dos relacionamento hetero-afetivos, ou seja: as pessoas. O comprometimento, a capacidade de doação e de ser você mesmo na relação prevalece independente da opção sexual. Alteridade é sinal de maturidade e capacidade de se envolver e de se deixar envolver.
   O número de pessoas no mundo aumentou e consequentemente aumentou o número de pessoas que fizeram sua opção pela homo ou bissexualidade. O clima da época nunca foi tão propício para que as pessoas revelem seus verdadeiros propósitos, e um dos nossos é sermos felizes. Pessoas felizes, seja com a opção que desejarem, espalham essa felicidade ao seu redor e é disso que o mundo precisa. 

   Portanto, nessa semana dos namorados, sejamos felizes com nossas escolhas e com nossos(as) parceiros(as) e saibamos enxergar o outro não como um espelho para nossas projeções e sim como alguém que fez a mesma opção de estar junto dentro de um relacionamento.

  Para encerrar, uma música que para mim resume um pouco do que foi escrito nesse post. A canção "Amor,meu grande amor" de Angela Rô Ro, regravada pelo Barão vermelho


Muita luz e amor para todos.
Daniel Ramos
Psicólogo

terça-feira, 11 de junho de 2013

...e eles se foram tão jovens...

    Desde que o mundo é mundo, sempre existiram pessoas à frente do seu tempo. Progressistas, no melhor sentido da palavra, destruidores de tendências e paradigmas, "apontadores" de um novo aeon que se avizinha, preparando o terreno para novos tempos. O traço em comum que liga muitos desses chamados "gênios" é simples: a grande maioria foi considerada louca ou no mínimo, seus inventos e descobertas não puderam ser codificados à época em que foram trazidos a público. Já dizia Schopenhauer "O gênio está mais próximo da loucura do que do pensamento mediano".

    Para muitos desses homens e mulheres, a genialidade acabou por afastá-los de uma vida comum, fazendo com que fossem ainda mais alvo de estudos e pesquisas posteriores, e não raro, uma aura de mistério e misticismo acaba por cercar suas vidas. Leonardo da Vinci, Aristóteles, Helena Blavatski, August Comte e um sem número de outras figuras históricas que tiveram a marca da criatividade que transpassava os padrões vigentes até hoje são temas de acalorados debates sobre as obras que deixaram, sem que se chegue a uma conclusão definitiva.

    Mas,estaria o gênio realmente fadado à loucura e ao sofrimento? O professor Ernst Kretschemer em suas pesquisas chegou a afirmar que a doença mental, em seus meandros de desajuste social e constituição mental diferenciada pode, em alguns casos, produzir o que se convencionou chamar de gênio. Os sintomas mais leves da doença mental, principalmente condições maníaco depressivas menos severas, podem ter relação com a produção criativa. Seguindo a mesma linha, Cesare Lombroso é categórico em afirmar que se encontram mais traços de degeneração mental em gênios do que em psicóticos. Para ele, muitos dos homens notáveis dos séculos que se passaram vieram de famílias com históricos de doença mental e excentricidade.

    Voltando nossas lentes para a história mais recente, mais especificamente na música, tivemos vários exemplos do gênio atormentado e incompreendido, que mergulhou fundo na psiquê humana, trazendo conteúdos do inconsciente coletivo, acertando em cheio e dando voz a tudo que uma geração queria dizer, mas que não encontrava palavras.A sensibilidade do artista é capaz de romper tempo-espaço e afundar num mar de sentimentos difusos e trazer de lá o ouro da poesia e inspiração, que toca corações e almas numa mesma sintonia.

   Porém, há uma grande cobrança para quem nasce com a fábula do talento artístico: essa permeabilidade e facilidade de dialogar com sentimentos também mostra-se fatal, principalmente no que tange à vida pessoal do gênio. Muitos deles, para não dizer a grande maioria, não consegue se desvencilhar dos próprios demônios. A facilidade pra falar de amor não significa que o amor bateu à sua porta sem pedir licença. O artista genial sofre, e ainda com mais intensidade que a pessoa comum. Chafurda na dor incompreendida por ele, mas cantada em prosa e verso de maneira magistral. E claro, o desfecho é quase sempre fatal, ainda associado ao abuso de drogas e álcool.

   Exemplos não faltam: A trindade do 27, composta por Janis Joplin, Jim Morrison e Jimmy Hendrix, cujas semelhanças numerológicas chegam a ser assustadoras, hipnotizaram plateias nos anos 60, porém caíram vítimas de uma geração de experimentação exagerada. E assim o foram Sid Vicious, Kurt Cobain e mais recentemente Amy Winehouse, dentre tantos outros que marcaram suas respectivas gerações. Claro que fiz um resumo mais do que sucinto, pois os nomes não faltam.

   No Brasil a coisa não foi diferente. De Renato Russo a Raul Seixas, Cazuza, Elis, Chorão...todos vítimas de suas próprias sombras. A dor do artista se dissolve nas palavras de sua obra, que os fãs recebem em doses homeopáticas.Porém ao artista, fica a carga completa de tudo aquilo que foi passado, com matizes ainda mais vivas e sentidas. Mas não fossem eles, nossa vida seria infinitamente mais sem graça.

   
Com tanto artistas citados, ficaria injusto colocar uma música que resumisse o que foi falado.
Referência: SILVA,S.A.A;CAVALCANTI,C.M.O;BASTOS,O.Genialidade e Loucura.NEUROBIOLOGIA, 73 (1) jan./mar., 2010. Disponível em http://www.neurobiologia.org/ex_2010/14_ARTIGO_GENIO_CRIAT_BIPOLAR_vi(OK).pdf

Um grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo.