Os protestos ocorridos recentemente em São Paulo e no Rio de Janeiro em virtude do aumento da passagem não são necessariamente uma novidade. Manifestações públicas são até certo ponto comuns, porém, estas em particular me chamaram a atenção. Em primeiro pela capacidade de organização e mobilização, auxiliados pelo advento e popularização das redes sociais, o que demonstra que o jargão inscrito no nosso hino nacional "deitado eternamente em berço esplêndido" vem caindo por terra. Segundo por demonstrar também que o brasileiro começa a dar um grande passo rumo a uma nova tendência, de se posicionar ativamente frente a tantas coisas que outrora a população aguentou calada.
Contra os protestos sempre pesou o fato de termos no nosso DNA os eventos ocorridos na ditadura. As prisões arbitrárias e os espancamentos até hoje tem seu reflexo no nosso inconsciente, e nos remete, a cada imagem de protesto ocorrida na televisão, àqueles tempos negros. A polícia continua utilizando-se dos mesmos métodos. É uma força-tarefa embrutecida e truculenta, sem cerimônia na hora de distribuir safanões e "borrachadas", agindo da mesma forma que alguns anos atrás. O direito de manifestação e greve faz parte da nossa constituição federal e não deveria ser reprimido com tanta violência.
Evidentemente que há pessoas que se aproveitam disso para espalhar atos de vandalismo, escoradas pela multidão, para que cometam crimes e passem despercebidas. A essas pessoas acredito que a polícia deveria intervir com mais rigor, e não mais violência, que fique claro. O protesto feito com sentido é a voz do povo perante uma situação de conflito, buscando mudanças. Não há manifestações de grande cunho popular se a causa não for de interesse coletivo.
Mas o que vale a pena ressaltar é o motivo dessa nova mudança. Era de aquário? Crianças índigo? Crise de início de século? Tudo isso são conjecturas que se unem aos fatos que temos visto, mas o grande pilar de tudo isso se chama TOMADA DE CONSCIÊNCIA. Demorou alguns anos, mas aos poucos o povo brasileiro vai saindo do lugar do assistencialismo, do coitadinho e assumindo seu protagonismo. Nós somos um povo jovem, ou seja, cronologicamente ainda somos adolescentes, e como tal, estamos buscando nossa identidade, passando por aquele momento de revolta e balanço dos alicerces.
Durante anos, fomos tratados como crianças ignóbeis, mas tal qual os imberbes, um dia saímos do estado de dependência plena para atingirmos nossa emancipação, e para atingirmos este estágio, é necessário muita luta e luto. Luto pela infantilidade enquanto povo, que não se responsabiliza pelos atos e delega seu futuro aos governantes. A mudança passa pelo fato de saber que os governantes apenas estão ali para servir e não ordenar. E a luta por essa independência, pois assim como muitos pais protelam a independência dos filhos, nossos "pais" governantes vão lutar com unhas e dentes para encerrar essa nossa revolta e nos manter eternamente como crianças obedientes.A sombra coletiva do brasileiro, de passividade, vai tomando contornos agressivos, o que é natural, pois só agora estamos nos dando conta de nossas potencialidades. Demora um tempo para aprendermos a lutar por nossos direitos, protestando, entretanto com mais efetividade e sem tanta perda energética.Na coletividade, temos força, porém, tendemos a nos deixar a guiar pelo grupo, perdendo um pouco de nossa individualidade para dar lugar aos interesses gerais.
Para encerrar, uma música icônica do cantor Sérgio Sampaio, que trata daquela nossa imensa vontade de colocar tudo pra fora, de colocar nosso "bloco na rua"
Muita paz( e luta com consciência) a todo
Daniel Ramos
Psicólogo.

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