domingo, 21 de julho de 2013

Idealize e decepcione-se

    
    Ídolos. São tantos e de tantas formas que fica impossível catalogá-los. Sejam monstros do rock, astros de cinema, gênios da ciência e literatura, todos de alguma forma são o auge daquilo que almejamos. São aqueles que chegaram lá em termos de talento e descobertas, e que servem para nos guiar e mesmo nos dar sentido a nossas vidas.

   A tendência à idealização é arquetípico do ser humano, estando presente desde o nascimento. Como afirma Melanie Klein, o recém nascido idealiza o seio como um objeto sagrado, capaz de lhe prover o sustento e a saciedade, no momento em que esse o deseja, criando-se assim o primeiro protótipo de relação idealizada. Na mente da criança, o seio(bom) é a epítome de tudo que é bom e maravilhoso, havendo para isso, a necessidade de que tal experiência seja guardada em algum lugar da psiquê do recém nascido, para protegê-lo das posteriores frustrações, que virão a constituir o oposto do seio bom, o seio mau. Portanto, levamos para o cerne de nossas vidas, esses objetos arcaicos, fruto de nossas próprias fantasias.

   Ao longo do tempo, vamos aumentando nosso escopo de relacionamentos, mas mesmo assim, ainda mantemos a semente dos objetos de idealização firmes em nosso inconsciente. Quando conhecemos alguém, enxergamos essa pessoa pelas nossas próprias lentes, que já estão "contaminadas" pelas nossas inclinações e visões de mundo. Projetamos características que achamos que estão ali, mas na verdade estão em nós mesmos, e no fundo acabamos nos sentindo frustrados quando a pessoa não cumpre com as tais das "nossas expectativas".

   Partindo dessa premissa, até concordo em termos com alguns autores que dizem que a paixão é uma espécie de surto psicótico. Numa paixão intensa, você distorce a realidade para que ela caiba na sua fantasia de mundo. Você enxerga coisas que não estão ali, vivendo uma condição especial de realidade quase paralela. Até mesmo a química cerebral se altera nas grandes paixões.

   Mas excetuando essa condição especial, elevar certas coisas e pessoas ao status de ideais, é até certo ponto, saudável. Significa que conseguimos manter intactas características boas, introjetadas pelo seio bom, o que dá margem para possibilidades de relacionamentos saudáveis no futuro. Porém, o pólo oposto, é o que faz a idealização ser negativa.

   Por vezes a idealização é tão intensa, que podemos nos sentir diminuídos perante um objeto tão supremo. Pequenos e impotentes que nos tornamos, uma atitude compensatória comum é a inveja. Destruir e denegrir o objeto é uma forma de escapar á imensa dor de sermos tão pouco diante de algo que nós mesmos criamos. Outra atitude comum é de querer igualar-se ao ideal. E digo desde já, que é uma competição injusta, pois esse ideal é inalcançável, criado pela nossa própria psiquê, muitas vezes como forma de punição.

  Idealizar é o primeiro passo para se desapontar. Em primeiro lugar, nenhum depositário de nossas projeções tem a obrigação de recebê-las. Nossa mente é uma máquina infindável de criar maçãs em terrenos de abóboras, e reclamamos por não colhê-las. Em segundo, a responsabilidade por criar nossos ídolos é toda nossa, baseada em nossa história, com o nossos já citados, objetos mais arcaicos.

 
Ter ídolos é bom. Eles despertam o melhor em cada um de nós. Mas é isso mesmo, atiçam características que são nossas, só estão projetadas fora. Porém, é sempre bom ter claro que pessoas são pessoas, sujeitas a falhas e idiossincrasias tais quais as nossas. Idealizá-las é uma atitude até certo ponto injusta, é tirar da pessoa a possibilidade de ser ela mesma, para se adaptar ao nosso padrão de mundo. E o colorido da vida está realmente na diversidade.

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O chiste e o sexo

   Quando um estrangeiro olha as imagens do carnaval brasileiro logo imagina a sodomia desenfreada que ocorre nos quatro dias de fuzarca na maior festa pagã do mundo. Não só os gringos, mas nós mesmos acabamos contaminados de certa forma pelo clima que se instala durante esses dias. "Carna-vale" ou seja, vale tudo na carne, nesses dias onde as máscaras caem e as pessoas revelam desejos íntimos que ficam guardados 361 dias por ano. A grande questão é: para um povo aparentemente tão sensual como o brasileiro, ser liberal apenas quatro dias por ano é uma porcentagem pequena. Mas por quê?

   Por que a grande verdade é que o povo brasileiro é um povo reprimido sexualmente. Nossa carga judaico-cristã nos enche de moralidade e vergonha . O prazer no sexo, o gozo e o orgasmo, muitas vezes vem acompanhados de uma sensação de culpa massacrante. Todo nosso passado, de uma corte portuguesa, de forte carga religiosa, trouxe um colorido vexatório ao ato sexual. Não que a corte portuguesa fosse um exemplo de moral, mas como tudo era proibido, as coisas eram feitas na surdina, no cair da noite. A pureza indigenista, deu lugar ao pudor sobre o próprio corpo.

   Atribuímos sexo à causa última do encontro pessoal; quando não o usamos como moeda de troca. A sociedade impõe uma moralidade casta, uma fidelidade obrigatória e prega a não promiscuidade. Claro que o sexo promíscuo e sem cuidado é um vetor para doenças, porém é tão doente quanto, manter relacionamentos castos, baseados no medo de uma moral e de uma castração externa. Temos medo de que uma entidade cruel irá nos punir ou nos julgar se dermos vazão aos nossos desejos mais profundos, e por consequência, muitos passam a vida toda frustrados, com vergonha de conversar com o próprio parceiro sobre suas preferências.

   E é na relação que as coisas se complicam. Quando não há diálogo entre o casal, não há possibilidade de se expôr as fantasias; o relacionamento saudável é aquele onde ambos podem se desnudar, sem medo. O desnudar, nesse caso, é o despir-se de preconceitos e julgamentos e aceitar incondicionalmente. O problema é a carga afetiva e coberta de preceitos com que chegamos aos relacionamentos. E por receio de falar de nossas idiossincrasias, ambos acabam-se por refugiar-se nas suas fantasias e deixam de viver no real.

   O europeu é muito mais liberal. Embora lá não se veja tanta "pele" como aqui ( até mesmo por uma questão climática), o povo de lá tem muito menos embaraço quando o assunto é sexo. As possibilidades de exploração da sexualidade e das muitas formas de vivê-la não são assunto velado. Já na América, as coisas são diferentes. Determinados países classificam um filme de tiroteio como censura "14 anos" e colocam classificação "madura + de 18" quando o mesmo filme mostra um seio. É um opróbrio do próprio corpo.

   O brasileiro também tem seus pudores com relação ao conluio. A prova disso é o sem número de piadas sexuais que fazem os programas humorísticos. A Psicanálise coloca o chiste como um mecanismo sob o qual, muitos conteúdos inconscientes se manifestam. E tudo aquilo que se teme, ou se exclui ou se faz piada, que é uma maneira de manter seguros, determinados temas que são caros às consciência. E disso, a TV está cheia.

   Freud até tinha razão em dizer que a causa última da existência humana é a sexualidade. É inegável a força que a energia sexual possui sobre o ser humano, quer demos vazão a ela ou não. Os antigos já cultuavam e alguns ainda cultuam a força da energia de Kundalini, que é a energia sexual, que de tão poderosa, pode ser canalizada para cura. O sexo tântrico, que dizem, podem até mesmo fazer com que o ser humano atinga o estado de Nirvana.

   Enfim, sexo é liberdade, saúde, felicidade. É não se prender a culpa, rótulos e estereótipos. É ter plena consciência do corpo e da possibilidade de troca com outro ser humano. É não confundir com libertinagem e promiscuidade e saber transitar bem nessa linha. E que sejamos seres humanos livres de amarras

 Por fim, uma música para ilustrar um pouco do que foi escrito no post.
"Rita Lee: Amor e sexo"
http://www.youtube.com/watch?v=HiwfydbBtCA

Abraços a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O ECA da discórdia

   
   A constituição federal de 1989 marcou profundamente a história brasileira por ser uma constituição de cunho humanitário, que passou a vista sobre determinados setores sociais, outrora estigmatizados ou ignorados. Nessa esteira vieram, dentre outros, os estatutos do idoso e o famigerado e agora discutido Estatuto da criança e do adolescente. As crianças historicamente sempre foram tratados como adultos em miniatura e os adolescentes nem sempre existiram enquanto fase psicossocial em discussão. Na teoria, o ECA discute questões importantes e trás à tona pela primeira vez na história da nação, a criança e o adolescente como cidadãos de direitos, aos quais se devem respeito como pessoas em situação peculiar de desenvolvimento.

   Pela primeira vez também, as crianças e adolescentes podem e devem ser ouvidos nos casos de adoção e guarda, tem direitos de estar nos logradouros públicos, de contestar critérios avaliativos, de ser tratadas com respeito, de desfrutar de lazer e dignidade. Com relação à lei, não podem ser penalmente responsáveis se menores de 18 anos, apenas sujeitos a medidas de sócio-educativas. Na teoria, a lei funcionaria perfeitamente, porém, já sendo polêmico, na prática, muita coisa não se mostra eficaz.

   Falar em adolescência como fase de vida, só a muito pouco tempo passou a estar na roda de discussões, portanto, ainda se engatinha no tocante ao tratar essa faixa etária. São pré-adultos? São crianças tardias? Tudo depende do referencial familiar, mas também do que se espera deles. Nem mesmo os próprios adolescentes sabem onde se encontram nesse conflito de gerações e portanto, agem com dificuldade nesse meio. No ECA, coloca-se muito a questão do direito, e como tal, o jovem cobra ser tratado como cidadão, o que é plenamente correto, porém a falta de limites entre o que é educativo e o que é protetivo, previstos na lei, acabam por fortificar o narcismo inerente ao adolescente. É o bom e velho "eu posso tudo e não devo nada".

   Muitos professores relatam ter dificuldades em sala de aula quando precisam chamar a atenção ou serem mais enérgicos. O discurso "você não pode me desrespeitar, está no ECA!" também é um mantra comum. Por isso se faz necessária uma discussão mais aprofundada sobre o tema e sua abrangência. Como tudo que é novo ( em termos históricos, ainda não fez 30 anos de estatuto) ainda cabe aprimoramento e controvérsias, e embora a lei seja bem escrita e fundamentada, a sua aplicação nos diversos contextos pode e deve ser revista.

   O fundamento do ECA é competente e correto; tratar nossas crianças e adolescentes, que são o futuro da nação, como cidadãos em desenvolvimento, direcionando políticas públicas que privilegiem essa proteção é dar um passo enorme para criar cidadãos conscientes. Porém, da maneira como se encontra, o que se apresenta é uma imperiosa necessidade de afastamento de qualquer forma de responsividade aos adolescentes, a quem pode se atribuir ato infracional, mas cujos mecanismos de reabilitação social não se mostram efetivos. 

   A redução da maioridade penal é assunto que tratarei em outro post, mas vale a pena citar brevemente que os nossos adolescentes estão perdidos e o estatuto, ao que parece, tem apenas assinado embaixo que seus atos não terão consequências danosas. Não sou a favor de punições severas, mas sim de uma sociedade menos permissiva, mais coerente com seus atos, que trate com amor, mas que seja exemplo de confiança e continência para esse jovens.

   
   Não acho que o ECA precise ser revisto, mas a maneira radical como tem sido tratado, sim. Levar tudo a ferro e fogo tem criado uma geração despreparada para lidar com adversidades e as possíveis consequências de suas atitudes. Respeito e dignidade não são sinônimos de permissividade. Nossas crianças e jovens ainda precisam de educação e acima de tudo, exemplos!

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A classe média e o sustentáculo de um sistema instável

   No significado da palavra, Médio é aquele que intermedeia duas instâncias, que se interpõe entre duas metades. Médio é também aquele que se encontra no meio de algo ou alguma coisa. Todas essas definições podem se encaixar perfeitamente naquela que se convencionou chamar de "Classe média". Na história da humanidade, a classe média teve grande influência, principalmente quando a burguesia ascendeu como classe emergente, exigindo mudanças no status quo da sociedade. O surgimento do comércio reorganizou a vida na Europa, trazendo a possibilidade de mobilidade de classes sociais, até então pré-determinadas e polarizadas entre povo e nobreza ( ou qualquer nome que se desse a uma classe dominante). Munida do principal poder de fogo do mundo, o capital, a burguesia deixou de ser vista como subclasse para ser tratada como emergente e preocupante.

   É inegável que a classe média é sempre o termômetro das maiores mudanças populares ocorridas na história da humanidade. A revolução francesa, foi produzida pelo povo, simplesmente pela condição miserável em que se viviam à época, porém, o pensamento era burguês. A inconfidência mineira, fortemente influenciada pelos ideais iluministas, foi encabeçada por estudantes de classe média alta, inconformados com a situação do Brasil da mineração.  E assim foram tantas outras, sejam elas revoluções de cunho constitucionalista, cultural, sexual, o fato é que as mudanças mais significativas acontecem quando a classe média resolve se movimentar.

   Somos seres desejantes;é da nossa natureza querer algo a mais, e se assim não o fosse, ainda estaríamos vivendo nas cavernas.  Sabendo disso, o mercado capitalista, que necessita da alimentação monetária constante, estimula o comércio, instigando exatamente essa natureza do querer do ser humano. E a classe média é o principal alvo dessa, por vezes,desleal competição. O mercado vende um mundo para o cidadão médio, que ele deseja, mas que não pode ter, mas só será feliz se o tiver, e assim irá pagá-lo em suaves 35,40,60 prestações, contribuindo para a retroalimentação do sistema capitalista.O mundo colorido prometido à classe média mostra-se uma armadilha. As dívidas astronômicas no cartão de crédito e o consumo exagerado por produtos mantém o mercado aquecido.

   O grande medo das classes B e C( embora eu discorde dessas classificações) é cair de padrão de vida, e para isso, fará de tudo para manter-se no mesmo nível, mesmo que às expensas de muita coisa. É a classe social que paga mais impostos, que tem mais gastos e mesmo assim, aquela que menos enriquece. As classes menos favorecidas são auxiliadas por políticas de assistência,e no frigir dos ovos, gastam bem menos que a classe média. Já a minoria no topo da pirâmide também paga impostos equivalentes, com a diferença básica do nível salarial, e apesar de  também pagarem taxas abusivas, alcançaram um patamar desejado e lá se mantém. Então que não digam que nossa sociedade não é estamental, pois o que se vê é uma mobilidade muito pequena de classes sociais.

   Portanto o cenário que se mostra é: as classes menos favorecidas satisfeitas com políticas de suposto auxílio e pouco fazendo pra mudar, satisfazendo-se com o lugar comum, de séculos e séculos de assistencialismo, que não nego, tenha seus méritos, mas que deveria ser apenas um trampolim para algo maior. A classe A mante
ndo-se no topo, bem aderida ao sistema,e a classe média, no proscênio de todo esse teatro, rebolando pra sustentar o sistema com uma mão e sobreviver dignamente no outro.

  O grande agente de mudanças de uma sociedade é a classe média. É ela que se levanta quando os governos se tornam opressores e as políticas públicas abusivas. Demorou quase séculos, mas agora finalmente a nossa classe burguesa está saindo do lugar comum. Começamos a perceber que viver num mundo de ilusão, de "ter", não garante uma vida melhor. Fechar a janela do carro enquanto todo um cenário vivo passa do lado de fora, é ignorar o óbvio. Acordando a classe média, por conseguinte, toda a sociedade se modifica.

Grande abraço e que todos possamos sair do lugar comum
Daniel Ramos
Psicólogo