quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Loki, Félix, adoção e sentido

    Recentemente fui assistir a "Thor: O mundo sombrio". Não obstante eu ser um fã declarado de super-heróis, a história em si, muito bem contada, me chamou a atenção. O filme é muito bem dirigido, com ação, humor e drama na medida certa. As relações bem construídas entre os personagens dá um colorido todo especial à película. Mas o principal destaque do filme é sem dúvida Loki, o irmão invejoso do protagonista Thor. A bela atuação do ator Tom Hidelston aprofundou ainda mais o personagem, e o carisma tanto de criador, como criatura fazem o espectador mergulhar na psiquê mais profunda do vilão.

    Pegando como paralelo outro personagem que se divide entre a brilhante atuação de um grande ator e uma figura ficcional intrigante, Félix, da atual novela do horário nobre, interpretado pelo ator Matheus Solano, também é daqueles "vilões" em que por vezes é impossível torcer para a sua derrocada.

    Tanto Loki, quanto Félix possuem paralelos interessantes em seu background. Em primeiro lugar, ambos usam muito da sedução para alcançarem seus objetivos. Não que isso seja ruim, é apenas um dado de realidade que ambos usam potencialmente. Essa sedução faz com que o público fique dividido entre amá-los e odiá-los. Por vezes, eu mesmo fiquei pensando durante o filme "poxa dêem um planeta para o Loki governar para que ele seja feliz!". Com Félix acontece a mesma coisa. De vilão convicto a possível vítima, o personagem vem conquistando o Brasil, a ponto do autor da novela começar a retratá-lo de maneira mais humana e redentora.

    Mas a principal equivalência entre os dois vêm de raízes mais profundas. Loki é irmão adotivo de Thor( o Loki da mitologia original é irmão de Odin). Ele é filho de um gigante do gelo, que foi resgatado por Odin, à beira da morte, e criado como um asgardiano. Félix, ao que tudo indica, também passou por um processo de adoção ( embora a trama da novela possa mudar). Em ambos casos, os dois foram retirados de uma realidade muito diversa àquela a qual foram colocados na sequência. Das montanhas de gelo aos suntuosos palácios de Asgard, de uma possível infância humilde, a um rico e pomposo berço, um e outro atirados num mundo de frágil ilusão.

    É consenso quase geral entre os especialistas que casos de adoção não devem ser escondidos das crianças. Procurando ajuda profissional, ou apenas o momento certo, o fato é que os pais precisariam sempre que possível, contar a verdade aos filhos. Tudo por que desde o nascimento a criança já possui rudimentos de um ego, capaz de captar alguns recursos, mesmo que insipiente da realidade. Winnicott fala da privação e delinquência, quando coloca que um ambiente falho, nos primeiros momentos de vida, trará consequências para a vida adulta. Um ambiente acolhedor ( leia-se a "mãe" suficientemente boa) capaz de prover suas necessidades no momento certo, cria a ideia de onipotência, necessária nesses primeiros momentos de caos da vida do bebê. Dessa falha ambiental surgirão comportamentos que obrigarão esse mesmo ambiente a lhes resgatar o que faltou. Muitas atitudes de delinquência podem ser explicadas por essa teoria. O mundo, nesse caso, é cobrado por sua falta e a criança pede atitudes de controle e autoridade.

    Já para Jung, a criança em seus primórdios, está muito mais em contato com o incosciente dos pais, do que com os próprios. Portanto, a culpa, os receios e pensamentos sobre a adoção acabam sendo captados pela criança, mesmo que não seja em palavras. Portanto, se a verdade sobre o adotar for escondida, à criança sobrará um sentimento de inadequação e não pertencimento.

    E assim o é com Loki e Félix. Ambos crescem com o sentimento primordial da inveja sobre os irmãos ( a questão da inveja é abordada por Melanie Klein como inveja primária do seio, que se não ressignficada, transborda para outras áreas), que em sua mente, ficam com a maior parte do amor dos pais. A sensação de que o amor foi retirado vêm de berço, do abandono no nascimento, mas acaba sobejando nos relacionamentos posteriores. Loki acredita ser o legítimo rei de Asgard, assim como Félix persegue o desejo de ser presidente do hospital. Isso é uma atitude para compensar o sentimento de inferioridade e não pertencimento que trazem consigo.

   Os dois querem agradar os pais, mas não os pais comuns e sim a imago paterna endeusada que ambos possuem. Félix a todo momento repete o bordão "papi poderoso" e Loki é filho de um verdadeiro Deus. Isso denota um sentimento de inferiodade e uma necessidade imperiosa de alcançar os feitos paternos. Um superego formado à imagem de pais muito irreais acaba por tornar-se quase patológica. Felix ainda possui a questão da homossexualidade, advinda de um complexo de édipo invertido, no qual a criança do sexo masculino deseja o pai muito mais do que se identifica com ele.

    Vítimas ou não, independente da terminologia usada, ambos são crianças feridas, que encontram na arrogância e megalomania um sentido para a própria existência, que sentem ter sido roubados. A sensação de não pertencer a determinado lugar, como se toda sua vida fosse irreal é capaz de gerar atitudes extremas, mas no fim buscam apenas preencher o vazio do amor primordial.

Um grande abraço a todos.
Daniel Ramos
Psicólogo

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A marcha das vadias e a nova voz do feminino ferido

      De tempos em tempos, o clima vigente é invadido por novas ideias e irrupções espontâneas na psique coletiva, que modificam atitudes e comportamentos. Sempre que algo se estratifica, se tornando paradigmático, algo de novo surge, derrubando ou ao menos lançando uma carga viral no status quo vigente. Isso é o que acontece nas nossas vidas: sempre que nos tornamos obcecados, unilateralizados, nosso inconsciente, através da nossa sombra e complexos, nos aplica pequenos "golpes", de modo a compensar tal atitude, sempre visando a nossa própria integração.

     E assim acontece no coletivo. Sempre que um pensamento se torna claramente enraizado na mente coletiva, o inconsciente trata de apontar novas saídas, novas maneiras de proceder, pois o ser humano é um constante aprendizado, e é da nossa natureza, sermos seres evolutivos. Assim aconteceu com Darwin, ao apresentar um novo escopo a até então indiscutível teoria de Lamarck. Ocorre constantemente com a física quântica, tirando a física tradicional do lugar comum e obrigando seus teóricos mais tradicionais, a rever seus conceitos. E assim o é na sociedade em geral.

    Enquanto seres pensantes, somos razoavelmente recentes nesse planeta. Ainda "ontem"( em termos históricos) lutávamos por nossa sobrevivência em cavernas, e hoje tomamos as mesmas atitudes, mudou-se apenas a vestimenta. A igualdade entre os sexos,é muito recente, pois apenas a partir do anos 60, com a liberação sexual é que se começou a discutir abertamente esta questão, e ainda engatinhamos nela. O tratamento dado à mulher durante todo esse tempo é prova do quanto ainda beiramos o primitivismo. Nesse cenário é que podemos observar a atuação unilateral consciente ser derrubada por um novo aeon de ideias.

    No século retrasado, Freud passou a tratar surtos de histeria, que foram considerados o mal daquela época. A palavra Histeria é derivada de útero, o que já dá uma certa indicação de que o problema de um feminino ferido, querendo ter voz e vir à tona era o zeitgeist que se avizinhava. A mulher queria e necessitava ser notada; ter prazer e não apenas ser um receptáculo de fluidos e projeções. Sendo assim, as manifestações de um inconsciente a tanto reprimidas começam a eclodir nos momentos de vigília. A histeria é apenas um dos indícios de um novo colorido feminino,de uma sociedade acinzentada, dura e insensível. As aparições de Fátima, datadas da mesma época, a despeito da discussão de ser ou não ser uma manifestação metafísica, nos mostra o quanto o inconsciente coletivo desejava trazer de volta à sociedade os aspectos maternos sagrados.

    Se formos analisar o que nos diz nossa psique coletiva hoje ( dando um salto histórico, subscrevendo por hora tantos outros momentos históricos importantes), diversas manifestações acabam sendo nosso termômetro. O surgimento dos movimentos GLBT, ondas de valorização do corpo fora dos padrões convencionais, discussões que até então eram impensáveis em outras épocas podem nos dar a dimensão exata sobre a época que vivemos. Muitos dizem que é uma época de excessos, porém vou mais além: estamos vivendo uma época sem máscaras. Com as luzes acesas, não temos mais como nos esconder. Ou aprendemos a nos aceitar mutuamente, tal como fomos concebidos, ou nos isolamos em nossos próprios preconceitos.

   A marcha das vadias é uma dessas difusões coletivas, bem antenadas com o momento. Surgida espontaneamente, após declarações infelizes de que as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias (sluts) para não ocorrerem estupros, tal declaração foi a gota d'água para o criação do movimento. Na mesma barca, acabou-se por colocar nessa mesma lista assuntos como a sexualidade sem culpa e o novo papel da mulher nessa sociedade. Num contexto que sugere uma similaridade entre homem e mulher, a alma feminina busca integrar em si mesma todas as qualidades (e defeitos) que as fazem únicas. 

    
     A mulher moderna quer amar, gozar, trabalhar, liderar, ser feliz. Quer ser amada,acariciada,acolhida e respeitada. Nessa mulher residem as Amélias, Liliths, Cleópatras, Elis, Helenas...elas são tantas em uma só, e assim o é. E a cada uma cabe escolher o papel que lhe aprazer, ou todos, ou nenhum. É disso que se trata: Escolhas.

    O movimento supracitado é apenas um, dentre tantas novas formações que pretende abalar alguma atitude unilateral. Nada aparece sem um significado. Se uma estrutura assim surgiu, por certo é que não temos dado suficiente atenção a ela. Será que não necessitamos olhar com mais atenção para o feminino em nós? Sejamos homens ou mulheres, talvez as características positivas da Grande mãe estejam sendo chamadas para que possamos amar incondicionalmente, para que um dia possamos voltar ao grande útero universal.

Um grande abraço
Daniel Ramos
Psicólogo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

"Sonho que NÃO se sonha só...

    Após algum tempo sem postar, eis que volto de um breve interstício criativo, para voltar a expôr determinados temas que me são caros. Longe de mim esgotar determinado assunto, o que pretendo colocar são apenas breves explanações a respeito de como a ciência da Psicologia adentra temas do cotidiano. Para  reiniciar os posts, gostaria de escrever brevemente a respeito dos sonhos. Claro que um tema tão vasto e controverso não caberia num único post, portanto, pretendo voltar a esse assunto em diversas outras oportunidades.

   O que são os sonhos? Difícil responder a tal assertiva, pois trata-se de um assunt
o polêmico, que trespassa a humanidade desde a aurora dos tempos.Para muitos, os sonhos são uma espécie de vida paralela, onde temos contato com realidades impensáveis, deuses e seres mitológicos, cerceados por uma malha de figuras criadas pela imaginação humana. Os xamãs e grandes líderes espirituais seriam seres iluminados, com grande facilidade de acesso a essas dimensões, com ou sem estados alterados de consciência.

   De uma maneira geral, podemos entender os sonhos como um momento de relaxamento da psique, onde é passado a limpo tudo aquilo que tem acontecido nos momentos de vigília. Freud, que baseou grande parte do arcabouço de seu tratamento na interpretação de sonhos, os colocava como a repetição ou a realização, de desejos reprimidos e recalcados pelo Ego ao longo do dia. Portanto, uma maneira da psique se autorregular e dar vazão a vontades não satisfeitas.

   Foi C.G.Jung quem trouxe novas contribuições à interpretação dos sonhos. Em primeiro lugar, ao retirar a palavra interpretação e substituí-la por análise. Para Jung, um sonho não pode ser interpretado a nível simbólico, com conteúdos fixos, pois cada inconsciente trás à tona imagens condizentes com a realidade de cada um, e sim analisado, em uma aliança terapêutica com o paciente, onde este deve sentir e dialogar com as imagens formadas pela sua própria psique. Nesse caso, o terapeuta serve como um guia, e não como o dono do saber.

   Ainda para Jung, os substratos inconscientes sofrem influência tanto do inconsciente individual, quando do inconsciente coletivo, formando diversos tipos de sonhos. Existem os sonhos premonitórios, onde nosso Self, o centro máximo organizador da experiência humana,nossa porção divina, tenta nos alertar sobre alguma situação perigosa. Sonhos de morte e assaltos geralmente vem informar sobre atitudes cristalizadas, que precisam "morrer", e ceder lugar a novas formas de se conceber o mundo. Imagens de animais selvagens podem indicar repressão de instintos básicos, querendo vir à tona. Mas, alertando mais uma vez, os símbolos são individuais, e o sonho os utiliza como possibilidade para uma mudança de atitude. 

   Os sonhos são imagens produzidas espontaneamente pela psique objetiva, visando "alertar" o ego sobre possíveis atitudes unilaterais; aquela velha falta de atenção a prazeres básicos e pequenos momentos felizes. Até mesmo os pesadelos tem sua função ,como um tratamento de choque para um ego muito enrijecido, cujas imagens buscam tirar o EU da sua posição de conforto.

   Por fim, mas sem encerrar de vez o assunto, há os chamados Grandes sonhos, que seriam aqueles cujos símbolos estão mergulhados em significados ocultos ou mesmo de grande conteúdo numinoso, sagrado. São aqueles sonhos que por vezes, guiam grandes homens. A história conta que figuras como Moisés, Maomé e tantos outros decidiram seguir seu caminho após um grande chamado, visões reveladas durante o sono. Porém os grandes sonhos estão acessíveis a todos, pois  estamos imersos no mesmo inconsciente coletivo, e nele encontramos as mesmas imagens.

   Prestemos atenção aos nossos sonhos, pois eles são a porta de entrada para nosso mundo interior.

Um grande abraço
Daniel Ramos
Psicólogo

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Culpa, minha máxima culpa...

  
   Talvez um dos sentimentos mais motivadores do ser humano, equiparados apenas à sexualidade e o medo,é a culpa. Mas de forma diversa aos outros dois citados, ela pode ser amorfa, de conteúdo disfarçado e colorido desvirtuado. Podemos passar a vida toda tomando atitudes até mesmo automáticas, sem sabermos que estamos agindo por pura e simplesmente culpa. Mas de onde vem, pra onde vai, e quem controla os Quanta de culpa na consciência humana?

    O sentimento de culpa é antigo, datado dos primórdios do nascimento, concomitantes à formação do Ego, portanto, faz parte das estruturas mais arcaicas da nossa psiquê. M. Klein é quem mais define essa questão da culpa quando fala, em sua teoria, da questão das posições. Diferente de S.Freud, que dividiu a infância em estágios, Klein a dividiu em posições, somente duas, as quais nos alternamos durante a infância e a vida. 

    A primeira delas é a posição esquizo-paranoide. Seu mecanismo principal é a divisão entre o seio bom e o seio mal. Nessa fase, com o ego insipiente do recém nascido, há uma necessidade de se criar uma imagem divinizada do seio, como forma de escapar da angústia de aniquilamento. Porém, por volta dos seis meses, a criança passa a tomar uma maior consciência do mundo e a enxergar a mãe como separada dela e como um ser inteiro, e nesse momento, teme perdê-la, pois os ataques dirigidos contra o seio mal, na verdade foram dirigidos contra essa mãe. Daí advém a segunda posição, chamada de posição depressiva, cuja principal característica é a reparação. Portanto, nasce daí a semente do nosso eterno sentimento de culpa.

   Quem nunca teve a impressão daquele eterno peso no coração? aquele duradouro sentimento de nunca nos bastamos e que nada que façamos será suficiente? Não obstante termos um superego por vezes castrador, essa nossa tendência à reparação nos persegue, muitas vezes, inconscientemente durante toda a vida. Essa nossa culpa de um dia termos tentado destruir a quem nos deu a vida continua dando o ar da graça em boa parte dos nossos relacionamentos. Muitas vezes mantemos relacionamentos destrutivos apenas por culpa do sofrimento alheio ocasionado por um possível término dessa relação.

   Alguns, para se livrar das "transgressões" se entregam de maneira patológica a trabalhos voluntários. O voluntariado é maravilhoso, desde que seja algo vindo de boa fé e não como fuga para situações não resolvidas. Isso apenas mascara a dor, que irá aparecer sob a forma de outro sintoma mais à frente.

   A palavra Desculpa é uma tentativa de que alguém nos tire a culpa de alguma situação, mas a triste notícia é que ninguém pode fazer isso, a não ser nós mesmos. A maior dificuldade nossa esta em desculpar nossas próprias falhas. Junte isso a uma culpa que não é nossa, mas é colocada no nosso DNA cristão: a culpa pela crucificação. Passando longe das polêmicas sobre religião, o fato é que existe ali uma mensagem subliminar. Ao ver o Salvador crucificado, automaticamente nos remete à máxima de que o sacrifício foi feito em nosso nome, ( o que eu discordo, porém é assunto pra outro post) portanto, nada do que façamos irá nos livrar dessa imputação.

   E daí seguem suas ramificações: temos culpa de ganhar dinheiro, de ter sucesso, de sermos bons em alguma coisa. É como se nunca pudéssemos ser redimidos do pecado original. A solução? Consciência. Nada que é automático pode ser positivo, pois não gera reflexão. E se não gera reflexão, não gera aprofundamento. É apenas quando nos perguntamos o porquê da culpa de cada comportamento automato que existe a possibilidade de mudança.

   Portanto, não necessitamos da culpa para viver. Ela é importante nos primórdios da formação do nosso Eu, pois é ela quem auxilia na formação da nossa capacidade de se preocupar e reparar. Porém, não há necessidade de reparar a vida toda, o tempo todo, durante toda a eternidade. Sejamos felizes e que os grilhões da culpa não nos arrastem em seus desmandos.

  Para encerrar, uma música do grande Raul Seixas, que fala de alguém que tenta consertar o mundo a toda hora.
"Raul Seixas e Marcelo Nova: Carpinteiro do Universo"

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Os chamados da alma

   
  Os antigos,modernos, induístas, xintoístas, católicos,budistas e tantos outros concordam em uma coisa: dentro de cada ser existe uma centelha, uma fagulha divina que é o motor de combustível infinito de nossa existência através das eras: a alma. O nome varia, mas poucos duvidam que o corpo humano é constituído por algo a mais além de órgãos e vísceras.

   
   Houve um tempo, principalmente no Século 18 , em que se acreditou que o ser humano fosse apenas um amontoado de músculos e que tudo na vida pudesse se resumir a equações matemáticas. O mundo tornou-se cartesiano e assim, sistematizou-se todo o conhecimento. O Iluminismo trouxe enorme contribuição à área científica, tentando explicar os fenômenos reduzindo-os a causas mentalistas. O que trouxe um novo paradigma de conhecimento, também acabou por afastar da vida cotidiana, assuntos mais ortodoxos, como os meandros do sentimento e do espírito. O prisma iluminista tornou-se tão forte, que até hoje, tais assuntos são tratados como tabu pela própria academia.

   
  A ciência e o espírito permaneceram separados durante muito tempo, dialogando em paralelo sobre o mesmo assunto, sem admitir que fazem parte do mesmo plano de existência. A ciência afirma A, os alternativos, espiritualistas e religiosos afirmam B, e todos no fim, querem dizer C. Parece que aquilo que é da alçada da alma, não tem lugar no mundo empírico da universidade.

   
  Porém, muitos teóricos cultuados na academia não ignoraram por completo que o ser humano é controlado e regido por leis e princípios invisíveis. Desde Freud, que traçou seus estudos através de Josef Breuer, culminando na Psicanálise, cujo principal escopo é a teoria que somos principalmente controlados pelo nosso inconsciente, tivemos tantos outros que passaram sua lente sobre o desconhecido e não palpável. Dentre eles, talvez aquele que mais se aventurou por esses caminhos tenha sido C.G.Jung, cujas ideias muitas vezes foram rechaçadas pelo círculo acadêmico devido ao teor "esotérico" de sua obra. Jung adentrou por caminhos diversos e polêmicos, utilizando-se de conceitos alquímicos e da simbologia do Tarô como ferramentas na constituição de seu arcabouço teórico.

   Gosto muito de uma comparação do ser humano com um computador. A torre seria nosso corpo físico, a parte mais externa da máquina. A energia elétrica que a alimenta, o espírito. Os programas seriam nossa consciência, a inteligência que opera dentro da máquina e nossa alma, no meio disso tudo, seria o operador do computador, a inteligência suprema por trás de tudo isso. A alma é a nossa imago divina, nossa porção de deuses e deusas. A queda do paraíso nunca aconteceu: fomos nós que nos esquecemos de quem somos.

   
  Nossa alma ( ou Self, citando Jung) sabe o que é melhor em cada momento de nossas vidas. Como a inteligência que opera, ela sabe onde devemos estar, e o que viemos fazer nesse planeta. A grande dificuldade da vida começa quando o "programa" começa a discutir com o "operador". Como disse, não há dúvidas da divindade que habita em cada um de nós, mas há sempre a possibilidade do nosso eixo Ego-Self ficar bloqueado. Geralmente acontece quando teimamos em seguir nossa razão ou teimosia, ao invés de ouvir o nosso chamado interior. Isso bloqueia o fluxo de energia universal e interrompe o clamor da alma.

  
   É fácil reconhecer as pessoas que seguem o chamado da alma: elas estão ao nosso redor a todo tempo. Nem sempre são aquelas mais bem sucedidas financeiramente ou com o maior cargo da empresa, mas são aquelas que se reconhece no olhar, aquele brilho fulgurante de quem se atreveu a realizar-se de si mesmo. Fácil, difícil? Tudo é uma questão de começar. Um pequeno exercício: Quando foi a última vez que fizemos algo que realmente gostamos? Ou tiramos o dia pra não fazer nada? E o pior, quando nos perguntamos se estamos fazendo a coisa certa? A resposta é sempre aquela sensação de dever cumprido que nosso travesseiro tanto ama.Não há como fugir de nossa alma, nem dos nossos chamados e compromissos. Cedo ou tarde eles batem à nossa porta e a grande questão é saber se estamos ou não preparados para atender.


Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo.



domingo, 21 de julho de 2013

Idealize e decepcione-se

    
    Ídolos. São tantos e de tantas formas que fica impossível catalogá-los. Sejam monstros do rock, astros de cinema, gênios da ciência e literatura, todos de alguma forma são o auge daquilo que almejamos. São aqueles que chegaram lá em termos de talento e descobertas, e que servem para nos guiar e mesmo nos dar sentido a nossas vidas.

   A tendência à idealização é arquetípico do ser humano, estando presente desde o nascimento. Como afirma Melanie Klein, o recém nascido idealiza o seio como um objeto sagrado, capaz de lhe prover o sustento e a saciedade, no momento em que esse o deseja, criando-se assim o primeiro protótipo de relação idealizada. Na mente da criança, o seio(bom) é a epítome de tudo que é bom e maravilhoso, havendo para isso, a necessidade de que tal experiência seja guardada em algum lugar da psiquê do recém nascido, para protegê-lo das posteriores frustrações, que virão a constituir o oposto do seio bom, o seio mau. Portanto, levamos para o cerne de nossas vidas, esses objetos arcaicos, fruto de nossas próprias fantasias.

   Ao longo do tempo, vamos aumentando nosso escopo de relacionamentos, mas mesmo assim, ainda mantemos a semente dos objetos de idealização firmes em nosso inconsciente. Quando conhecemos alguém, enxergamos essa pessoa pelas nossas próprias lentes, que já estão "contaminadas" pelas nossas inclinações e visões de mundo. Projetamos características que achamos que estão ali, mas na verdade estão em nós mesmos, e no fundo acabamos nos sentindo frustrados quando a pessoa não cumpre com as tais das "nossas expectativas".

   Partindo dessa premissa, até concordo em termos com alguns autores que dizem que a paixão é uma espécie de surto psicótico. Numa paixão intensa, você distorce a realidade para que ela caiba na sua fantasia de mundo. Você enxerga coisas que não estão ali, vivendo uma condição especial de realidade quase paralela. Até mesmo a química cerebral se altera nas grandes paixões.

   Mas excetuando essa condição especial, elevar certas coisas e pessoas ao status de ideais, é até certo ponto, saudável. Significa que conseguimos manter intactas características boas, introjetadas pelo seio bom, o que dá margem para possibilidades de relacionamentos saudáveis no futuro. Porém, o pólo oposto, é o que faz a idealização ser negativa.

   Por vezes a idealização é tão intensa, que podemos nos sentir diminuídos perante um objeto tão supremo. Pequenos e impotentes que nos tornamos, uma atitude compensatória comum é a inveja. Destruir e denegrir o objeto é uma forma de escapar á imensa dor de sermos tão pouco diante de algo que nós mesmos criamos. Outra atitude comum é de querer igualar-se ao ideal. E digo desde já, que é uma competição injusta, pois esse ideal é inalcançável, criado pela nossa própria psiquê, muitas vezes como forma de punição.

  Idealizar é o primeiro passo para se desapontar. Em primeiro lugar, nenhum depositário de nossas projeções tem a obrigação de recebê-las. Nossa mente é uma máquina infindável de criar maçãs em terrenos de abóboras, e reclamamos por não colhê-las. Em segundo, a responsabilidade por criar nossos ídolos é toda nossa, baseada em nossa história, com o nossos já citados, objetos mais arcaicos.

 
Ter ídolos é bom. Eles despertam o melhor em cada um de nós. Mas é isso mesmo, atiçam características que são nossas, só estão projetadas fora. Porém, é sempre bom ter claro que pessoas são pessoas, sujeitas a falhas e idiossincrasias tais quais as nossas. Idealizá-las é uma atitude até certo ponto injusta, é tirar da pessoa a possibilidade de ser ela mesma, para se adaptar ao nosso padrão de mundo. E o colorido da vida está realmente na diversidade.

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O chiste e o sexo

   Quando um estrangeiro olha as imagens do carnaval brasileiro logo imagina a sodomia desenfreada que ocorre nos quatro dias de fuzarca na maior festa pagã do mundo. Não só os gringos, mas nós mesmos acabamos contaminados de certa forma pelo clima que se instala durante esses dias. "Carna-vale" ou seja, vale tudo na carne, nesses dias onde as máscaras caem e as pessoas revelam desejos íntimos que ficam guardados 361 dias por ano. A grande questão é: para um povo aparentemente tão sensual como o brasileiro, ser liberal apenas quatro dias por ano é uma porcentagem pequena. Mas por quê?

   Por que a grande verdade é que o povo brasileiro é um povo reprimido sexualmente. Nossa carga judaico-cristã nos enche de moralidade e vergonha . O prazer no sexo, o gozo e o orgasmo, muitas vezes vem acompanhados de uma sensação de culpa massacrante. Todo nosso passado, de uma corte portuguesa, de forte carga religiosa, trouxe um colorido vexatório ao ato sexual. Não que a corte portuguesa fosse um exemplo de moral, mas como tudo era proibido, as coisas eram feitas na surdina, no cair da noite. A pureza indigenista, deu lugar ao pudor sobre o próprio corpo.

   Atribuímos sexo à causa última do encontro pessoal; quando não o usamos como moeda de troca. A sociedade impõe uma moralidade casta, uma fidelidade obrigatória e prega a não promiscuidade. Claro que o sexo promíscuo e sem cuidado é um vetor para doenças, porém é tão doente quanto, manter relacionamentos castos, baseados no medo de uma moral e de uma castração externa. Temos medo de que uma entidade cruel irá nos punir ou nos julgar se dermos vazão aos nossos desejos mais profundos, e por consequência, muitos passam a vida toda frustrados, com vergonha de conversar com o próprio parceiro sobre suas preferências.

   E é na relação que as coisas se complicam. Quando não há diálogo entre o casal, não há possibilidade de se expôr as fantasias; o relacionamento saudável é aquele onde ambos podem se desnudar, sem medo. O desnudar, nesse caso, é o despir-se de preconceitos e julgamentos e aceitar incondicionalmente. O problema é a carga afetiva e coberta de preceitos com que chegamos aos relacionamentos. E por receio de falar de nossas idiossincrasias, ambos acabam-se por refugiar-se nas suas fantasias e deixam de viver no real.

   O europeu é muito mais liberal. Embora lá não se veja tanta "pele" como aqui ( até mesmo por uma questão climática), o povo de lá tem muito menos embaraço quando o assunto é sexo. As possibilidades de exploração da sexualidade e das muitas formas de vivê-la não são assunto velado. Já na América, as coisas são diferentes. Determinados países classificam um filme de tiroteio como censura "14 anos" e colocam classificação "madura + de 18" quando o mesmo filme mostra um seio. É um opróbrio do próprio corpo.

   O brasileiro também tem seus pudores com relação ao conluio. A prova disso é o sem número de piadas sexuais que fazem os programas humorísticos. A Psicanálise coloca o chiste como um mecanismo sob o qual, muitos conteúdos inconscientes se manifestam. E tudo aquilo que se teme, ou se exclui ou se faz piada, que é uma maneira de manter seguros, determinados temas que são caros às consciência. E disso, a TV está cheia.

   Freud até tinha razão em dizer que a causa última da existência humana é a sexualidade. É inegável a força que a energia sexual possui sobre o ser humano, quer demos vazão a ela ou não. Os antigos já cultuavam e alguns ainda cultuam a força da energia de Kundalini, que é a energia sexual, que de tão poderosa, pode ser canalizada para cura. O sexo tântrico, que dizem, podem até mesmo fazer com que o ser humano atinga o estado de Nirvana.

   Enfim, sexo é liberdade, saúde, felicidade. É não se prender a culpa, rótulos e estereótipos. É ter plena consciência do corpo e da possibilidade de troca com outro ser humano. É não confundir com libertinagem e promiscuidade e saber transitar bem nessa linha. E que sejamos seres humanos livres de amarras

 Por fim, uma música para ilustrar um pouco do que foi escrito no post.
"Rita Lee: Amor e sexo"
http://www.youtube.com/watch?v=HiwfydbBtCA

Abraços a todos
Daniel Ramos
Psicólogo