De tempos em tempos, o clima vigente é invadido por novas ideias e irrupções espontâneas na psique coletiva, que modificam atitudes e comportamentos. Sempre que algo se estratifica, se tornando paradigmático, algo de novo surge, derrubando ou ao menos lançando uma carga viral no status quo vigente. Isso é o que acontece nas nossas vidas: sempre que nos tornamos obcecados, unilateralizados, nosso inconsciente, através da nossa sombra e complexos, nos aplica pequenos "golpes", de modo a compensar tal atitude, sempre visando a nossa própria integração.
E assim acontece no coletivo. Sempre que um pensamento se torna claramente enraizado na mente coletiva, o inconsciente trata de apontar novas saídas, novas maneiras de proceder, pois o ser humano é um constante aprendizado, e é da nossa natureza, sermos seres evolutivos. Assim aconteceu com Darwin, ao apresentar um novo escopo a até então indiscutível teoria de Lamarck. Ocorre constantemente com a física quântica, tirando a física tradicional do lugar comum e obrigando seus teóricos mais tradicionais, a rever seus conceitos. E assim o é na sociedade em geral.
Enquanto seres pensantes, somos razoavelmente recentes nesse planeta. Ainda "ontem"( em termos históricos) lutávamos por nossa sobrevivência em cavernas, e hoje tomamos as mesmas atitudes, mudou-se apenas a vestimenta. A igualdade entre os sexos,é muito recente, pois apenas a partir do anos 60, com a liberação sexual é que se começou a discutir abertamente esta questão, e ainda engatinhamos nela. O tratamento dado à mulher durante todo esse tempo é prova do quanto ainda beiramos o primitivismo. Nesse cenário é que podemos observar a atuação unilateral consciente ser derrubada por um novo aeon de ideias.
No século retrasado, Freud passou a tratar surtos de histeria, que foram considerados o mal daquela época. A palavra Histeria é derivada de útero, o que já dá uma certa indicação de que o problema de um feminino ferido, querendo ter voz e vir à tona era o zeitgeist que se avizinhava. A mulher queria e necessitava ser notada; ter prazer e não apenas ser um receptáculo de fluidos e projeções. Sendo assim, as manifestações de um inconsciente a tanto reprimidas começam a eclodir nos momentos de vigília. A histeria é apenas um dos indícios de um novo colorido feminino,de uma sociedade acinzentada, dura e insensível. As aparições de Fátima, datadas da mesma época, a despeito da discussão de ser ou não ser uma manifestação metafísica, nos mostra o quanto o inconsciente coletivo desejava trazer de volta à sociedade os aspectos maternos sagrados.
Se formos analisar o que nos diz nossa psique coletiva hoje ( dando um salto histórico, subscrevendo por hora tantos outros momentos históricos importantes), diversas manifestações acabam sendo nosso termômetro. O surgimento dos movimentos GLBT, ondas de valorização do corpo fora dos padrões convencionais, discussões que até então eram impensáveis em outras épocas podem nos dar a dimensão exata sobre a época que vivemos. Muitos dizem que é uma época de excessos, porém vou mais além: estamos vivendo uma época sem máscaras. Com as luzes acesas, não temos mais como nos esconder. Ou aprendemos a nos aceitar mutuamente, tal como fomos concebidos, ou nos isolamos em nossos próprios preconceitos.
A marcha das vadias é uma dessas difusões coletivas, bem antenadas com o momento. Surgida espontaneamente, após declarações infelizes de que as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias (sluts) para não ocorrerem estupros, tal declaração foi a gota d'água para o criação do movimento. Na mesma barca, acabou-se por colocar nessa mesma lista assuntos como a sexualidade sem culpa e o novo papel da mulher nessa sociedade. Num contexto que sugere uma similaridade entre homem e mulher, a alma feminina busca integrar em si mesma todas as qualidades (e defeitos) que as fazem únicas.
A mulher moderna quer amar, gozar, trabalhar, liderar, ser feliz. Quer ser amada,acariciada,acolhida e respeitada. Nessa mulher residem as Amélias, Liliths, Cleópatras, Elis, Helenas...elas são tantas em uma só, e assim o é. E a cada uma cabe escolher o papel que lhe aprazer, ou todos, ou nenhum. É disso que se trata: Escolhas.
O movimento supracitado é apenas um, dentre tantas novas formações que pretende abalar alguma atitude unilateral. Nada aparece sem um significado. Se uma estrutura assim surgiu, por certo é que não temos dado suficiente atenção a ela. Será que não necessitamos olhar com mais atenção para o feminino em nós? Sejamos homens ou mulheres, talvez as características positivas da Grande mãe estejam sendo chamadas para que possamos amar incondicionalmente, para que um dia possamos voltar ao grande útero universal.
Um grande abraço
Daniel Ramos
Psicólogo.

Parabéns Dani.. ótimo texto.. !!
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