terça-feira, 13 de agosto de 2013

Culpa, minha máxima culpa...

  
   Talvez um dos sentimentos mais motivadores do ser humano, equiparados apenas à sexualidade e o medo,é a culpa. Mas de forma diversa aos outros dois citados, ela pode ser amorfa, de conteúdo disfarçado e colorido desvirtuado. Podemos passar a vida toda tomando atitudes até mesmo automáticas, sem sabermos que estamos agindo por pura e simplesmente culpa. Mas de onde vem, pra onde vai, e quem controla os Quanta de culpa na consciência humana?

    O sentimento de culpa é antigo, datado dos primórdios do nascimento, concomitantes à formação do Ego, portanto, faz parte das estruturas mais arcaicas da nossa psiquê. M. Klein é quem mais define essa questão da culpa quando fala, em sua teoria, da questão das posições. Diferente de S.Freud, que dividiu a infância em estágios, Klein a dividiu em posições, somente duas, as quais nos alternamos durante a infância e a vida. 

    A primeira delas é a posição esquizo-paranoide. Seu mecanismo principal é a divisão entre o seio bom e o seio mal. Nessa fase, com o ego insipiente do recém nascido, há uma necessidade de se criar uma imagem divinizada do seio, como forma de escapar da angústia de aniquilamento. Porém, por volta dos seis meses, a criança passa a tomar uma maior consciência do mundo e a enxergar a mãe como separada dela e como um ser inteiro, e nesse momento, teme perdê-la, pois os ataques dirigidos contra o seio mal, na verdade foram dirigidos contra essa mãe. Daí advém a segunda posição, chamada de posição depressiva, cuja principal característica é a reparação. Portanto, nasce daí a semente do nosso eterno sentimento de culpa.

   Quem nunca teve a impressão daquele eterno peso no coração? aquele duradouro sentimento de nunca nos bastamos e que nada que façamos será suficiente? Não obstante termos um superego por vezes castrador, essa nossa tendência à reparação nos persegue, muitas vezes, inconscientemente durante toda a vida. Essa nossa culpa de um dia termos tentado destruir a quem nos deu a vida continua dando o ar da graça em boa parte dos nossos relacionamentos. Muitas vezes mantemos relacionamentos destrutivos apenas por culpa do sofrimento alheio ocasionado por um possível término dessa relação.

   Alguns, para se livrar das "transgressões" se entregam de maneira patológica a trabalhos voluntários. O voluntariado é maravilhoso, desde que seja algo vindo de boa fé e não como fuga para situações não resolvidas. Isso apenas mascara a dor, que irá aparecer sob a forma de outro sintoma mais à frente.

   A palavra Desculpa é uma tentativa de que alguém nos tire a culpa de alguma situação, mas a triste notícia é que ninguém pode fazer isso, a não ser nós mesmos. A maior dificuldade nossa esta em desculpar nossas próprias falhas. Junte isso a uma culpa que não é nossa, mas é colocada no nosso DNA cristão: a culpa pela crucificação. Passando longe das polêmicas sobre religião, o fato é que existe ali uma mensagem subliminar. Ao ver o Salvador crucificado, automaticamente nos remete à máxima de que o sacrifício foi feito em nosso nome, ( o que eu discordo, porém é assunto pra outro post) portanto, nada do que façamos irá nos livrar dessa imputação.

   E daí seguem suas ramificações: temos culpa de ganhar dinheiro, de ter sucesso, de sermos bons em alguma coisa. É como se nunca pudéssemos ser redimidos do pecado original. A solução? Consciência. Nada que é automático pode ser positivo, pois não gera reflexão. E se não gera reflexão, não gera aprofundamento. É apenas quando nos perguntamos o porquê da culpa de cada comportamento automato que existe a possibilidade de mudança.

   Portanto, não necessitamos da culpa para viver. Ela é importante nos primórdios da formação do nosso Eu, pois é ela quem auxilia na formação da nossa capacidade de se preocupar e reparar. Porém, não há necessidade de reparar a vida toda, o tempo todo, durante toda a eternidade. Sejamos felizes e que os grilhões da culpa não nos arrastem em seus desmandos.

  Para encerrar, uma música do grande Raul Seixas, que fala de alguém que tenta consertar o mundo a toda hora.
"Raul Seixas e Marcelo Nova: Carpinteiro do Universo"

Grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo

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