sexta-feira, 21 de junho de 2013

...meu mundo e nada mais.O egoísmo na hora das manifestações

   Não há como mudar de assunto. Sem querer ser pedante ou repetitivo, a forma como as manifestações tem tomado conta do Brasil não devem ser retiradas de foco seja pelo lado bom ou não. Vale ressaltar as belas imagens da multidão pacífica adentrando à avenida Paulista, infelizmente maculada em outros lugares por cidadãos ignóbeis, que se aproveitam de uma mobilização social para promoverem atos de puro vandalismo e egoísmo. É lamentável, mas nós merecemos, pois isso é fruto da má educação e de uma falta de consciência ética e moral por parte da grande maioria da população, que se encontra em estágios retrógrados com relação às normas sociais.

   O Psicólogo Lawrence Kohlberg (1927-1987) responsável pela teoria do desenvolvimento moral do ser humano, fala de "estágios" desse desenvolvimento. Resumidamente, ele fala que a moral no ser humano são maneiras de raciocinar a respeito de situações, e que se espera que a pessoa vá adquirindo novas formas de pensar e se portar diante do mundo conforme amadurece. As respostas dos sujeitos perante os dilemas da vida mostram a forma como esse se mostra perante o mundo. Há três níveis de consciência divididos em seis estágios.

   O primeiro nível é o pré-convencional, cujos estágios pertencentes são:1-orientação para punição e obediência e 2- Hedonismo instrumental relativista. Nesse momento, o indivíduo ainda não tem claras as regras de convivência para o bem comum, importando apenas o prazer pessoal e a punição por seus atos. Se um ato foi punido é por que foi mal, se não o foi, é sinal de que foi considerado bom. É nesse estágio que se encontram as crianças e uma boa parte dos marginais e delinquentes, muitos dos quais puderam ser vistos nas passeatas, transmitidas pela mídia. Tais sujeitos precisam de uma moral imposta de fora, sem qualquer noção de reciprocidade ou respeito. Ou então, utilizam-se de uma moral própria, apenas afeita a satisfação do prazer pessoal. Foi o que apareceu nas imagens veiculadas por todos os cantos, nos últimos dias. O que se viu, além é claro, de pessoas de bom tom e consciência, lutando com sentido e sem violência, por mudanças no nível macro da sociedade, foram determinados indivíduos agindo por puro egoísmo, utilizando-se dos motivos pessoais para esbanjar violência e depredação.

   
A fixação nesse estágio pode ser a responsável pelo grande atraso social que se vê. O indivíduo não adquire uma noção de grupo, não incorpora a ética e moral como meios de vida. Para essas pessoas, não há motivos evidentes de que ser um cidadão ético traga alguma vantagem, pois é mais fácil viver pelo próprio prazer e obter ganhos imediatos, do que abdicar disso em prol do bem comum.
   
   Para Kohlberg, a solução é que tais pessoas consigam, através da tomada de consciência e educação, atingirem níveis mais elevados de moral, que são os níveis Convencional e Pós-convencional. No segundo nível, o Convencional, tem-se como estágios respectivamente 3- Moralidade do bom garoto, de aprovação e das relações interpessoais e 4-Orientação para lei e para ordem. Nesses estágios, que é onde se encontram uma boa parte das pessoas, o comportamento moralmente correto é o que leva a aprovação dos outros, a uma ordem social com papéis definidos. Noções de justiça já são incorporadas ao sujeito, porém, há pouca mobilidade e plasticidade na interpretação do certo e errado. É tudo muito "preto e branco", onde a justiça social sobrevém os valores pessoais.

   Por fim, no nível pós-convencional, que segundo o autor, poucos indivíduos conseguem alcançar, é onde se localizam pessoas como Gandhi, Jesus Cristo, Marthin Luther King. Os estágios 5 e 6 que correspondem respectivamente a Orientação para o contrato social e Princípios universais da consciência, a pessoa tem a noção de que as leis podem ser injustas e que, não sendo possível a mudança dessas leis pela democracia, ainda assim há a resistência, a luta e a desobediência civil, de forma justa.

  O que se viu nessas manifestações foi um pouco de tudo. Desde pessoas hedonistas e egoístas, agindo pelo próprio bem,passando por aqueles que querem mudanças para uma melhor ordem social do bem comum e  aqueles que entendem que o Brasil precisa de mudanças e reformas e que as leis não funcionam para todos. De qualquer maneira, as mudanças, para acontecerem no nível desejado, tem que primeiro acontecer no interior de cada um. Seria maravilhoso se todos pudéssemos chegar ao estágio dos Princípios universais da consciência, mas isso só será alcançado quando todos os estágios forem vividos e transpassados.

Muita força para todos os envolvidos e que esse Brasil mude de vez
Daniel Ramos
Psicólogo

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