Camões dizia que "...o amor é fogo, que arde sem se ver" e já naquela época, o aclamado romancista português foi muito feliz na sua definição. Nem de longe foi a última ou a primeira, porém tal frase traduz perfeitamente o que se pode entender por amor. Diferente da paixão, que para alguns teóricos se assemelha a um surto psicótico, pois você enxerga coisas que não estão ali, e atribui características suas à pessoa, como uma neurose narcísica, típica dos surtos, o amor é algo que se constrói com o tempo, com a intimidade e principalmente: com a Alteridade.
Por alteridade podemos entender a diferença entre o "eu" e o "outro", aquela membrana que nos separa e nos torna indivíduos. Porém, para chegar ao estágio da alteridade, há que se passar por diversos outros momentos. O primeiro momento na vida de um ser humano, quando do nascimento, é o estágio urobórico, que nos remete à serpente que morde a própria cauda, num sinal de perpétuo infinito. Nesse estágio, somos seres indiferenciados; a barreira entre Eu e ambiente não foi estabelecida. Somente com o passar do tempo e com as subsequentes frustrações, começamos a evoluir para os outros estágios: O matriarcado e o Patriarcado, respectivamente. Não vou me deter muito nesse momento em procurar explicar sobre esses estágios, pois é um assunto assaz complexo, que exigira um post exclusivo, mas por hora, basta acrescentar que esses dois momentos são marcados na vida do indivíduo como características masculinas e femininas. No matriarcado, o indivíduo ainda está ligado à Grande mãe, portanto, ainda não se responsabiliza totalmente por seus atos. Já no patriarcado, começam a se instituir as regras e a moral para uma boa convivência. Aí sim, passados esses 3 estágios, o ser humano mentalmente e emocionalmente saudável se encontra em possibilidade e viver na alteridade. Mas o que é viver na alteridade?
Viver na alteridade é aceitar o outro, o que não significa concordar o tempo todo ou dizer "sim senhor para tudo", é simplesmente entender que vivemos num mundo multiplural e multicultural, onde cada pessoa se encontra num estágio de evolução diferente e mesmo, possui gostos e idiossincrasias distintas. Se nem nossos dedos das mãos são iguais, em mundo com bilhões de pessoas, porque também seríamos? Agora, o que tem a ver o amor, com a alteridade?
O amor existe, independente de classe social, idade, credo, porém, como foi citado acima, o amor pode ficar preso em algum dos estágios supracitados. O amor urobórico é o amor narcísico, onde cobramos do outro, aquilo que vemos em nós mesmos e nos sentimos frustrados quando este não corresponde a nossas expectativas. O amor matriarcal é aquele que pode ser ao mesmo tempo afetuoso e castrador, unindo ao mesmo tempo as características da Grande Mãe e da Mãe terrível. O Patriarcado já começa a dar um passo em direção a alteridade, quando já inicia uma responsabilização do outro por suas próprias atitudes.
ESCOLHAS SEXUAIS
A sociedade passa por um momento de transição, de revisão de valores, o que é natural em todo começo de século. A questão das escolhas sexuais para mim, nada mais é do que um passo na direção da alteridade, falada no início. Aceitar o outro, viver na diferença é um exercício diário. Homossexualidade não é doença, tampouco distúrbio de comportamento, como apregoam algumas religiões e até mesmo alguns teóricos. A homossexualidade existe até mesmo na natureza, portanto, faz parte do plano original da criação.
Freud categoriza a escolha do objeto de amor de duas maneiras: A escolha anaclítica, onde a escolha do objeto amoroso é alguém diferente do indivíduo, indicando um ego saudável e diferenciado, que atingiu sua maturidade, passando para a fase do narcisismo secundário. E a escolha narcísica, onde o sujeito escolhe como depositário de suas paixões, alguém exatamente feito à sua imagem e semelhança. Porém a questão a igualdade não depende do gênero sexual. Na minha opinião, as pessoas são configurações energéticas, tal qual a imagem dos arquétipos junguianos. Sendo assim, um relacionamento homossexual pode perfeitamente versar sobre a categoria de escolha de objeto anaclítica, pois o que importa é que ambos mantenham a individualidade e a eterna consciência de que o outro não é o reflexo distorcido da sua imagem.Um relacionamento homo-afetivo possui os mesmos problemas dos relacionamento hetero-afetivos, ou seja: as pessoas. O comprometimento, a capacidade de doação e de ser você mesmo na relação prevalece independente da opção sexual. Alteridade é sinal de maturidade e capacidade de se envolver e de se deixar envolver.
O número de pessoas no mundo aumentou e consequentemente aumentou o número de pessoas que fizeram sua opção pela homo ou bissexualidade. O clima da época nunca foi tão propício para que as pessoas revelem seus verdadeiros propósitos, e um dos nossos é sermos felizes. Pessoas felizes, seja com a opção que desejarem, espalham essa felicidade ao seu redor e é disso que o mundo precisa.
Portanto, nessa semana dos namorados, sejamos felizes com nossas escolhas e com nossos(as) parceiros(as) e saibamos enxergar o outro não como um espelho para nossas projeções e sim como alguém que fez a mesma opção de estar junto dentro de um relacionamento.
Para encerrar, uma música que para mim resume um pouco do que foi escrito nesse post. A canção "Amor,meu grande amor" de Angela Rô Ro, regravada pelo Barão vermelho
Muita luz e amor para todos.
Daniel Ramos
Psicólogo

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