domingo, 23 de junho de 2013

Luto e desapego

   Da infinita sabedoria popular do escritor Ariano Suassuna, dando voz a Chicó, um de seus mais icônicos personagens, dizia a todo momento na obra "O Auto da Compadecida", que tudo que é vivo morre! As frases em tom de troça do anti-herói resumem de certa forma o que se espera da única e grande verdade imutável na vida. Por mais paradoxal que seja,o medo da morte é o que nos move para a vida. O receio de não estar vivo no dia de amanhã é a mola propulsora para levantarmos todos os dias do colchão em busca da nossa própria sobrevivência. Trabalhamos, comemos, reproduzimos, e...morremos. O dia fatídico chega para todos nós, e por mais que queiramos adiar tal pensamento, um dia o abraço de Thanatos nos contemplará. 


   A civilização ocidental, por ser marcadamente mais individualista do que a oriental, tem muito mais dificuldade em aceitar a morte e as perdas. Muitas religiões orientais pregam a morte como um renascimento, um despertar para um outro mundo, diametralmente oposto ao que ocorre no ocidente, onde amargamos o luto por dias,meses, anos. O trabalho psicológico com as perdas é muito mais dispendioso energeticamente para nós. As religiões pentecostais prometem um mundo melhor do outro lado, o espiritismo apregoa uma mudança de consciência, um existir eterno em outros planos, mas mesmo assim, ainda tememos a perda. Mas qual o motivo de tanto sofrimento?



   O luto tem marcadamente cinco estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Cada um destes estágios tem suas características específicas. Determinadas pessoas podem ter mais facilidade em alguns momentos do que em outros, seja em virtude de filosofias de vida ou mesmo de aceitação pessoal.  O que ocorre em muitos casos é que a pessoa pode acabar ficando fixada em algum desses momentos. A negação é o passo inicial, onde, dado o choque da perda, nossa psique quer negar a todo custo o acontecido. A raiva, também reação bastante natural, é onde procuramos achar um culpado para o ocorrido. A barganha é quando a família ou o doente terminal se apegam a promessas ou votos, como meio de salvação. A depressão vem como consequência, após notarem que todas as tentativas anteriores se tornaram infrutíferas, para finalmente culminar na aceitação, quando o ser humano consegue se despir dos grilhões que o prendem.



   Aceitar a perda, e não falando necessariamente de morte, é algo que demanda tempo e vontade. Por um período a pessoa se retrai do mundo, retira seus interesses dos objetos externos. Um trabalho de elaboração energética precisa ser refeito, pois tanto o mundo interno, como externo, foram modificados. Pessoas, coisas e situações que ali estavam, agora já não estão mais, e fica difícil até se reconhecer no espaço vital. Porém, caso não se configure um caso de extrema depressão, a vivência da perda deve ser sentida e elaborada e a cada um deve ser dado o tempo necessário. E claro, o buscar ajuda é importante.



  As reações ao luto começam a ficar mais perigosas, quando além das reações citadas acima, instala-se também uma profunda melancolia. Tal estado pode ser confundido com as próprias reações do luto, exceto por serem mais intensas. Geralmente, vem acompanhada de sentimentos de culpa e baixa-estima, e uma grande tendência a idealizar o objeto perdido. Tais atitudes são bastante comuns em términos de relacionamentos, e demandam um pouco mais de cuidado do que o luto. Ambos estados requerem atenção, mas o luto é uma reação mais natural do que a melancolia.



  O desapego, que muitas filosofias e religiões apresentam, só pode ser vivenciado de bom grado se for inteiramente aceito. Não há, de forma alguma, como haver desapego se ainda houver fixação ao objeto perdido. Desapegar-se simplesmente, sem que haja um diálogo interno com a coisa perdida, é tapar o sol com a peneira, pois a dor da perda vai reaparecer em outro lugar, sob a forma de outro sintoma. Desapegar é elaborar e isso é um trabalho diário. Se viver é morrer um pouco a cada dia, desapegar é saber que nada nos pertence e fazer o nosso melhor a cada dia.Aproveitem o dia de hoje...pois é só o que nos resta.



Para encerrar com música, uma canção que trata de luto e desapego de uma maneira extremamente poética.
"Legião Urbana: Love in the afternoon"



Um grande abraço a todos
Muita paz e luz
Daniel Ramos
Psicólogo

2 comentários:

  1. lutamos para não perder a nossa condição confortável e hegemônica dos entes que nos cercam, então frente a perca da nossa falsa onipotência, nos encontramos com a finitude da existência, e percebemos que o nossa maior medo não perder as coias ou pessoas que nos cercam e sim nos perder com as coias e pessoas que nos cercam ...

    luto e melancolia são prisões que construo para negar a minha liberdade frete a frustração que a liberdade do outro me traz ...

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    1. É isso aí meu amigo...a perda do outro, nos faz lembrar da nossa própria sensação de finitude. Não sabemos com certeza o que nos espera do outro lado. A angústia maior é de quem fica, por viver a incerteza do agora.
      Grande abraço

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