Desde que o mundo é mundo, sempre existiram pessoas à frente do seu tempo. Progressistas, no melhor sentido da palavra, destruidores de tendências e paradigmas, "apontadores" de um novo aeon que se avizinha, preparando o terreno para novos tempos. O traço em comum que liga muitos desses chamados "gênios" é simples: a grande maioria foi considerada louca ou no mínimo, seus inventos e descobertas não puderam ser codificados à época em que foram trazidos a público. Já dizia Schopenhauer "O gênio está mais próximo da loucura do que do pensamento mediano".
Para muitos desses homens e mulheres, a genialidade acabou por afastá-los de uma vida comum, fazendo com que fossem ainda mais alvo de estudos e pesquisas posteriores, e não raro, uma aura de mistério e misticismo acaba por cercar suas vidas. Leonardo da Vinci, Aristóteles, Helena Blavatski, August Comte e um sem número de outras figuras históricas que tiveram a marca da criatividade que transpassava os padrões vigentes até hoje são temas de acalorados debates sobre as obras que deixaram, sem que se chegue a uma conclusão definitiva.
Mas,estaria o gênio realmente fadado à loucura e ao sofrimento? O professor Ernst Kretschemer em suas pesquisas chegou a afirmar que a doença mental, em seus meandros de desajuste social e constituição mental diferenciada pode, em alguns casos, produzir o que se convencionou chamar de gênio. Os sintomas mais leves da doença mental, principalmente condições maníaco depressivas menos severas, podem ter relação com a produção criativa. Seguindo a mesma linha, Cesare Lombroso é categórico em afirmar que se encontram mais traços de degeneração mental em gênios do que em psicóticos. Para ele, muitos dos homens notáveis dos séculos que se passaram vieram de famílias com históricos de doença mental e excentricidade.
Voltando nossas lentes para a história mais recente, mais especificamente na música, tivemos vários exemplos do gênio atormentado e incompreendido, que mergulhou fundo na psiquê humana, trazendo conteúdos do inconsciente coletivo, acertando em cheio e dando voz a tudo que uma geração queria dizer, mas que não encontrava palavras.A sensibilidade do artista é capaz de romper tempo-espaço e afundar num mar de sentimentos difusos e trazer de lá o ouro da poesia e inspiração, que toca corações e almas numa mesma sintonia.
Porém, há uma grande cobrança para quem nasce com a fábula do talento artístico: essa permeabilidade e facilidade de dialogar com sentimentos também mostra-se fatal, principalmente no que tange à vida pessoal do gênio. Muitos deles, para não dizer a grande maioria, não consegue se desvencilhar dos próprios demônios. A facilidade pra falar de amor não significa que o amor bateu à sua porta sem pedir licença. O artista genial sofre, e ainda com mais intensidade que a pessoa comum. Chafurda na dor incompreendida por ele, mas cantada em prosa e verso de maneira magistral. E claro, o desfecho é quase sempre fatal, ainda associado ao abuso de drogas e álcool.
Exemplos não faltam: A trindade do 27, composta por Janis Joplin, Jim Morrison e Jimmy Hendrix, cujas semelhanças numerológicas chegam a ser assustadoras, hipnotizaram plateias nos anos 60, porém caíram vítimas de uma geração de experimentação exagerada. E assim o foram Sid Vicious, Kurt Cobain e mais recentemente Amy Winehouse, dentre tantos outros que marcaram suas respectivas gerações. Claro que fiz um resumo mais do que sucinto, pois os nomes não faltam.
No Brasil a coisa não foi diferente. De Renato Russo a Raul Seixas, Cazuza, Elis, Chorão...todos vítimas de suas próprias sombras. A dor do artista se dissolve nas palavras de sua obra, que os fãs recebem em doses homeopáticas.Porém ao artista, fica a carga completa de tudo aquilo que foi passado, com matizes ainda mais vivas e sentidas. Mas não fossem eles, nossa vida seria infinitamente mais sem graça.
Referência: SILVA,S.A.A;CAVALCANTI,C.M.O;BASTOS,O.Genialidade e Loucura.NEUROBIOLOGIA, 73 (1) jan./mar., 2010. Disponível em http://www.neurobiologia.org/ex_2010/14_ARTIGO_GENIO_CRIAT_BIPOLAR_vi(OK).pdf
Um grande abraço a todos
Daniel Ramos
Psicólogo.

Embora resumido o texto é grandioso. Imaginamos todas as pessoas citadas e suas genialidades em um flash. Sombra e luz. Bem e mal. Bom e mau. As matizes resultantes das misturas. O super homem de Nietzche. O som de Mozart em uma guitarra tocada por Hendrix e cantado por Janis, estudado por Einsten, colorido pelos chacras de Van Gogh, em mantras que nos ligam ao etéreo. Parem o mundo que eu quero subir.
ResponderExcluirExcelente meu caro(a)...gostaria de me aprofundar mais, mas acho que o gênio fala por si só
ResponderExcluirum grande abraço e obrigado pelo comentário