Pegando como paralelo outro personagem que se divide entre a brilhante atuação de um grande ator e uma figura ficcional intrigante, Félix, da atual novela do horário nobre, interpretado pelo ator Matheus Solano, também é daqueles "vilões" em que por vezes é impossível torcer para a sua derrocada.
Tanto Loki, quanto Félix possuem paralelos interessantes em seu background. Em primeiro lugar, ambos usam muito da sedução para alcançarem seus objetivos. Não que isso seja ruim, é apenas um dado de realidade que ambos usam potencialmente. Essa sedução faz com que o público fique dividido entre amá-los e odiá-los. Por vezes, eu mesmo fiquei pensando durante o filme "poxa dêem um planeta para o Loki governar para que ele seja feliz!". Com Félix acontece a mesma coisa. De vilão convicto a possível vítima, o personagem vem conquistando o Brasil, a ponto do autor da novela começar a retratá-lo de maneira mais humana e redentora.
Mas a principal equivalência entre os dois vêm de raízes mais profundas. Loki é irmão adotivo de Thor( o Loki da mitologia original é irmão de Odin). Ele é filho de um gigante do gelo, que foi resgatado por Odin, à beira da morte, e criado como um asgardiano. Félix, ao que tudo indica, também passou por um processo de adoção ( embora a trama da novela possa mudar). Em ambos casos, os dois foram retirados de uma realidade muito diversa àquela a qual foram colocados na sequência. Das montanhas de gelo aos suntuosos palácios de Asgard, de uma possível infância humilde, a um rico e pomposo berço, um e outro atirados num mundo de frágil ilusão.
É consenso quase geral entre os especialistas que casos de adoção não devem ser escondidos das crianças. Procurando ajuda profissional, ou apenas o momento certo, o fato é que os pais precisariam sempre que possível, contar a verdade aos filhos. Tudo por que desde o nascimento a criança já possui rudimentos de um ego, capaz de captar alguns recursos, mesmo que insipiente da realidade. Winnicott fala da privação e delinquência, quando coloca que um ambiente falho, nos primeiros momentos de vida, trará consequências para a vida adulta. Um ambiente acolhedor ( leia-se a "mãe" suficientemente boa) capaz de prover suas necessidades no momento certo, cria a ideia de onipotência, necessária nesses primeiros momentos de caos da vida do bebê. Dessa falha ambiental surgirão comportamentos que obrigarão esse mesmo ambiente a lhes resgatar o que faltou. Muitas atitudes de delinquência podem ser explicadas por essa teoria. O mundo, nesse caso, é cobrado por sua falta e a criança pede atitudes de controle e autoridade.
Já para Jung, a criança em seus primórdios, está muito mais em contato com o incosciente dos pais, do que com os próprios. Portanto, a culpa, os receios e pensamentos sobre a adoção acabam sendo captados pela criança, mesmo que não seja em palavras. Portanto, se a verdade sobre o adotar for escondida, à criança sobrará um sentimento de inadequação e não pertencimento.
E assim o é com Loki e Félix. Ambos crescem com o sentimento primordial da inveja sobre os irmãos ( a questão da inveja é abordada por Melanie Klein como inveja primária do seio, que se não ressignficada, transborda para outras áreas), que em sua mente, ficam com a maior parte do amor dos pais. A sensação de que o amor foi retirado vêm de berço, do abandono no nascimento, mas acaba sobejando nos relacionamentos posteriores. Loki acredita ser o legítimo rei de Asgard, assim como Félix persegue o desejo de ser presidente do hospital. Isso é uma atitude para compensar o sentimento de inferioridade e não pertencimento que trazem consigo.
Os dois querem agradar os pais, mas não os pais comuns e sim a imago paterna endeusada que ambos possuem. Félix a todo momento repete o bordão "papi poderoso" e Loki é filho de um verdadeiro Deus. Isso denota um sentimento de inferiodade e uma necessidade imperiosa de alcançar os feitos paternos. Um superego formado à imagem de pais muito irreais acaba por tornar-se quase patológica. Felix ainda possui a questão da homossexualidade, advinda de um complexo de édipo invertido, no qual a criança do sexo masculino deseja o pai muito mais do que se identifica com ele.
Vítimas ou não, independente da terminologia usada, ambos são crianças feridas, que encontram na arrogância e megalomania um sentido para a própria existência, que sentem ter sido roubados. A sensação de não pertencer a determinado lugar, como se toda sua vida fosse irreal é capaz de gerar atitudes extremas, mas no fim buscam apenas preencher o vazio do amor primordial.
Um grande abraço a todos.
Daniel RamosPsicólogo



excelente!!!
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